O lugar que o tempo preservou

Terça-feira, 11 de Maio de 1976

O dia nasceu já contaminado pelo de ontem.
As sensações não se dissiparam durante a noite; ficaram suspensas, à espera que eu acordasse. Tudo hoje foi atravessado por esse instante breve que se recusou a morrer.

A rotina manteve-se, é verdade, mas por dentro nada estava igual. Cada gesto carregava um eco, cada pensamento regressava, teimoso, ao mesmo ponto. A expectativa criada por aquele encontro — tão curto que mal pode chamar-se encontro — instalou-se em mim como uma devoção silenciosa.

Há agora um lugar exacto no mundo que deixou de ser apenas um espaço de passagem. O sítio onde ontem nos cruzamos ganhou um peso simbólico desproporcionado, quase sagrado. Não é o chão, nem as paredes, nem o caminho em si. É o que ali ficou suspenso. Um fragmento de tempo que se recusou a seguir em frente.

Sinto uma estranha necessidade de regressar a esse ponto preciso, como se ali estivesse guardada uma parte de mim que não recolhi. Talvez seja apenas superstição emocional. Ou talvez os lugares, como as pessoas, também saibam reter presenças.

Não houve novos sinais, nem palavras, nem encontros. E, ainda assim, o dia esteve cheio. Cheio dessa tensão doce que não dói, mas pesa. Cheio de uma fé inexplicável num acaso que não se repetiu.

Hoje percebi que não foi apenas ela que passou por mim ontem.
Foi algo maior. Algo que não tem nome. E agora acompanha-me, discreto, à distância de um pensamento.

Amanhã o mundo insistirá em seguir.
Eu ainda estou ali, parado, naquele lugar exacto onde o tempo decidiu ficar.


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