O instante que suspendeu o meu mundo
Segunda-feira, 10 de Maio de 1976
Começou uma nova semana.
A manhã desenrolou-se sem urgência, como se o tempo tivesse decidido andar de mansinho. O tic-tac do relógio avançou monótono, quase hipnótico, até ao momento inevitável de sair para o liceu. Nada anunciava o que estava para acontecer. E talvez por isso tenha sido tão violento.
De tarde, ao chegar ao liceu, o tempo parou.
Ela surgiu.
A Dila estava ali, à minha frente, saída do nada como certas aparições que não avisam. Olhamo-nos fixamente nos olhos e, durante um infinitésimo de segundo, falamos sem palavras. Disse-se tudo nesse silêncio breve e absoluto. O mundo inteiro coube naquele instante.
Um rubor subiu-lhe às faces. Baixou os olhos, como quem se protege de algo demasiado intenso, e seguiu adiante sem dizer uma palavra. Não foi frieza. Foi excesso.
Eu fiquei imóvel.
Como se a Terra tivesse suspendido a sua rotação em torno do Sol só para me testar. Deixei de respirar. Senti um aperto na garganta, quase um sufoco, e o coração começou a bater desordenado, sem ritmo, sem disciplina — como se tivesse esquecido a função que lhe cabe.
Quando o instante passou, retomei o meu caminho. Não tive coragem de olhar para trás. Havia o medo infantil e sério de não a ver, de quebrar o encanto, de transformar o momento em coisa comum. Preferi preservar o que ficou.
E ficou muito.
Ficou a sensação da sua presença física, como um rasto invisível no ar, como calor que não se dissipa. Guardei-a com cuidado, quase com devoção. Há encontros que não pedem continuidade; pedem respeito.
Hoje, por breves segundos, vivi fora do tempo.
E isso chega para sustentar muitos dias comuns que, acredito, ainda hão-de vir.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »