O fio invisível da disciplina

Domingo, 9 de Maio de 1976

Tenho trazido afastado do Diário a minha actividade nas artes marciais, não por desleixo, mas por silêncio interior. Há dias em que alguns eventos não pedem papel. Ainda assim, hoje a manhã impôs-se. Pediu registo. E obedeci.

Durante a manhã estive numa sessão de cinema em companhia de dois mestres da minha Academia. Não foram apenas presenças; foram referências vivas. O Mestre Tran Huu Ha, figura fundamental das artes marciais vietnamitas em Portugal, trouxe consigo aquela serenidade que só os que sabem lutar sem precisar de o provar carregam. Há nele uma calma que não se aprende — reconhece-se.

Ao seu lado esteve o Mestre Tutsumi, um samurai dos tempos modernos. Discreto, recto, inteiro. Como todos os samurais, trouxe consigo o seu sabre. Um objecto com cento e cinquenta anos de idade, recebido do seu mestre. Não era ostentação. Era continuidade. A lâmina não cortava o ar; cortava o tempo.

Estar ali, entre estes homens, foi mais do que assistir a um filme. Foi assistir a uma forma de estar no mundo. Disciplina sem rigidez. Força sem ruído. Tradição sem nostalgia.

Este dia — esta manhã — foi uma aragem fresca. Daquelas que entram pela janela sem pedir licença e nos lembram que ainda há horizontes para lá da monotonia. Que a vida, mesmo quando parece parada, pode surpreender com encontros que alinham a coluna e endireitam o espírito.

Voltei a casa diferente. Não eufórico. Não transformado. Apenas mais inteiro.
E às vezes, isso basta para continuar.

A monotonia continua à porta.
Mas hoje soube que não é invencível.


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