O peso invisível da ausência

Sábado, 8 de Maio de 1976

A manhã foi de aulas, como mandam os sábados. Cumpridas sem resistência, quase em automático. Mas algo em mim caminhava noutro plano. Saí de casa e avancei pelas ruas sem ouvir o eco dos meus próprios passos, como se o chão tivesse desistido de me reclamar. Caminhar assim — leve, desligado da gravidade — elevou-me a um tecto celestial improvável, feito de nuvens e silêncio.

Ia presente e ausente ao mesmo tempo. Um corpo a deslocar-se, um pensamento a flutuar. Não sei se isto é sinal de paz ou aviso de perigo. Há estados que não trazem legenda.

Senti-me enlevado por algo que não compreendo, como se uma força discreta me puxasse para dentro, não para a frente. Não era alegria. Também não era tristeza. Era outra coisa — mais funda, mais difícil de nomear. Talvez um intervalo entre emoções, talvez um aviso prévio de mudança.

Há em mim uma sensação estranha de falta. Não uma falta recente, mas uma ausência antiga que só agora se começa a denunciar. Como se um membro me tivesse sido decepado há muito tempo e eu só agora desse conta do vazio onde ele deveria estar. O corpo segue, mas a alma tropeça nesse espaço em branco.

Não dói. Ainda não.
Mas incomoda. E o que incomoda, ensina.

Segui o dia assim, suspenso, sem respostas, sem perguntas bem formuladas. Às vezes, não compreender é o estado mais honesto que podemos habitar. Amanhã, talvez, o chão volte a fazer barulho. Ou talvez eu aprenda a andar definitivamente no ar.


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