Peregrinação às Memórias
Quinta-feira, 1 de Abril de 1976
O dia começou como todos os outros. Sem aviso, sem sinal, sem qualquer indício de que iria desviar-se da linha recta da rotina. Levantei-me, cumpri horários, atravessei o tempo como quem atravessa uma rua conhecida de olhos quase fechados. Nada falhou. Nada brilhou. Um dia funcional, desses que servem para manter o mundo a andar.
As aulas passaram por mim e eu passei por elas. Houve palavras ditas, quadros preenchidos, cadernos riscados. Tudo correcto, tudo previsível. O corpo estava ali. A cabeça, nem sempre. Há dias em que o pensamento anda solto, como um cão sem trela, regressando sempre aos mesmos sítios.
Foi ao fim da tarde que a coisa mudou. Não houve motivo claro, nem acontecimento concreto. A saudade caiu-me em cima sem pedir licença. Não foi suave. Foi dessas que apertam o peito e tornam o ar mais pesado. Uma saudade antiga, insistente, quase teimosa, que não aceita ser ignorada.
E fiz o que faço sempre que ela aparece: voltei aos lugares do meu passado romântico. Não por esperança — essa já aprendeu a esconder-se — mas por necessidade. Caminhei por ruas que conhecem os meus passos, sentei-me onde já me sentei outras vezes, olhei ângulos que guardam silêncios antigos. É uma espécie de peregrinação íntima, sem fé declarada, mas cheia de rituais.
Perdi-me ali. Ou talvez tenha sido ali que me encontrei, não sei bem. Foram lugares de espera, de olhares que nunca chegaram a acontecer, de palavras ensaiadas e nunca ditas. De amores? Talvez. Ou talvez apenas de tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Às vezes a diferença é mínima.
O que sei é que esses sítios continuam cravados fundo em mim, como marcas que o tempo não apaga. Posso fingir que passaram, posso ocupar os dias com outras coisas, mas basta um fim de tarde mais lento para tudo regressar.
Voltei para casa mais calado do que saí. Não triste — isso seria simples demais — mas carregado. Escrevo agora para aliviar o peso, sabendo que amanhã o dia voltará a começar como qualquer outro. E eu também.
A vida segue. Mas há partes de nós que ficam sempre sentadas à espera, em silêncio, nos mesmos lugares.
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