Quando a dor não encontra eco

Quarta-feira, 9 de Junho de 1976

A noite foi curta e mal dormida. A insónia venceu sem esforço, como se tivesse todo o direito de ali estar. Virei-me na cama vezes sem conta, com pensamentos a repetir-se, pesados, circulares. Quando a manhã chegou, não trouxe alívio — trouxe apenas cansaço.

Não tive cabeça para estudar. Olhava para os livros como quem olha para uma língua estrangeira. As palavras estavam lá, mas não me diziam nada. Deixei passar a manhã em suspensão, à espera que algo em mim acordasse. Não acordou.

De tarde fui para o liceu com o Manel e o Benjamim. O caminho fez-se como sempre, mas eu ia noutro sítio. Perguntei-lhes se tinham lido a notícia do suicídio da rapariga. Não sabiam de nada. Contei-lhes a história.

Foi um erro.

Mal acabei, começaram a falar de outras histórias semelhantes. Conheciam casos, diziam. Raparigas que se tinham matado por amor. Falavam disso com uma leveza que me caiu mal. Não por crueldade — por distância. Para eles era apenas isso: histórias, factos, conversa de passagem. Para mim, era um peso ainda aberto.

Procurei apoio e encontrei banalidade. Não por maldade, mas por indiferença. Nesse momento percebi com uma clareza desconfortável: eles e eu não estamos no mesmo lugar. Nunca estivemos. E talvez nunca venhamos a estar.

As aulas passaram sem que eu desse por elas. Estive sentado, atento o suficiente para não levantar suspeitas, ausente o bastante para não sentir demasiado. O resto do dia vivi-o na penumbra da minha mente, como quem anda num corredor mal iluminado, tropeçando nos próprios pensamentos.

Senti uma dor que não era minha. E, ainda assim, senti-a como se pudesse ser. Como se estivesse sempre ali, à espreita, pronta a cair sobre qualquer um. Essa possibilidade — mais do que a história em si — foi o que mais me feriu.

Regressei a casa cansado de pensar. Não escrevi logo. Precisei primeiro de silêncio. Há dores que não pedem solução — pedem apenas que alguém as leve a sério.

Hoje levei-as sozinho.

E isso também se aprende, mesmo que custe.


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