Quando o mundo pesa de repente

Terça-feira, 8 de Junho de 1976 

A manhã foi um decalque fiel das anteriores. Acordar, estudar, cumprir. A cabeça funcionou em modo automático, como se soubesse exactamente o que fazer sem precisar de mim inteiro. Não me opus. Há dias em que a rotina é uma forma de defesa.

De tarde, as aulas seguiram o seu ritmo próprio, indiferentes a tudo o resto. Professores a explicar, alunos a ouvir, o tempo a passar com a sua habitual falta de consideração. Estive presente, mas longe. Não distraído — apenas resguardado.

Ao fim da tarde fui para a Academia. Antes do treino encontrei a Aida. Falámos pouco. Disse-me, quase em tom de aviso, para ter cuidado, porque estava a ser vigiada. Fiquei a olhar para ela sem perceber bem. Cuidado de quê?, pensei. Eu não estou em lado nenhum. Estou só de passagem, sem compromisso, sem intenção de ficar. Uma história sem história, como tantas outras. O treino começou e isso bastou para empurrar o assunto para um canto da cabeça.

O esforço físico ajudou a esvaziar o corpo, mas não preparou o espírito para o que vinha depois.

À noite, já em casa, peguei no jornal quase por hábito. Foi aí que o dia se partiu.
Um título bateu-me antes mesmo de ler o texto:
“Acto tresloucado de uma jovem põe termo a um drama amoroso.”

Cada linha foi um golpe lento. Quinze anos. Uma rapariga. Uma família que não aceitou. Um amor proibido. Uma decisão final. Senti um aperto no peito que não era novo, mas regressava com outra gravidade. A dor daquela história não era minha, mas atravessou-me como se fosse.

Vieram medos antigos. Não em forma de pensamento claro, mas como um peso difuso, um sufoco. O receio transformou-se em medo puro, cru. Não queria isto para a Dila. Não queria isto para mim. Não queria que o amor — seja ele qual for — conduzisse alguém a um beco sem saída.

Fechei o jornal, mas a notícia não se fechou comigo. Ficou ali, a ecoar, a ocupar espaço demais dentro do peito.

Escrevo agora com dificuldade. O dia terminou pesado, sufocado, como se o ar tivesse ficado mais espesso. Há verdades que não ensinam — apenas ferem.

Deitei-me tarde. E pela primeira vez em muitos dias, o sono demorou a chegar.


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