Ritmos que se aprendem
Segunda-feira, 7 de Junho de 1976
A manhã começou cedo e com propósito. Sentei-me a estudar ainda com a casa meio adormecida, aquele silêncio bom que não distrai nem julga. A matéria avançou sem resistência. Não houve entusiasmo, mas houve método. E o método, quando funciona, é quase uma forma de paz.
Depois do almoço, a tarde levou-me para as aulas. O liceu tem este efeito curioso: tanto cansa como organiza. As horas passaram com um ritmo próprio, previsível, quase reconfortante. Estive atento, participei o necessário e deixei o resto seguir o seu curso natural. Já não luto contra os dias úteis — aprendi a usá-los.
À noite, o tempo dividiu-se como deve ser. As mãos ocuparam-se a desenhar, sem grandes ambições, apenas pelo prazer do traço a nascer no papel. O desenho tem isso de bom: cala o excesso de pensamento sem o amputar.
Entre um lápis pousado e outro retomado, li um pouco. Leitura tranquila, escolhida, sem pressa de acabar. A mente agradece quando não a empurramos sempre para a frente.
E, antes de dormir, escrevi. Sempre escrevo. O diário é o sítio onde o dia se explica a si próprio, mesmo quando não percebe muito bem o que foi. Escrever não resolve tudo, mas arruma.
Deitei-me com a sensação discreta de quem encontrou um compasso. Nada de extraordinário aconteceu. E, ainda assim, tudo esteve no lugar certo.
Amanhã continua o ritmo. E isso, agora sei, também é avanço.
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