O cansaço manso das horas vazias

Domingo, 6 de Junho de 1976 

O dia nasceu devagar, como se também ele tivesse sono. Levantei-me tarde, arrastando o corpo e a vontade, sem pressa nenhuma de chegar a seja o que for. A sonolência acompanhou-me como uma sombra teimosa, dessas que não se afastam mesmo com luz.

Passei parte da manhã a ler. Leitura fastidiosa, daquelas que não entram nem saem, ficam apenas ali a ocupar espaço. Li mais por insistência do que por interesse. Fechar o livro pareceu-me tão produtivo como abri-lo.

A música foi o que verdadeiramente deu forma ao silêncio. Não para o quebrar, mas para o habitar. Canções a preencher os intervalos do pensamento, sem pedir atenção total. Um fundo sonoro para um dia que não queria protagonismo.

As horas esticaram-se. Portas fechadas, janelas quase imóveis, ruídos exteriores reduzidos a uma vaga sensação de mundo distante. O dia lá fora existia, mas parecia acontecer noutro sítio, noutra vida. Aqui dentro, tudo era morno, lento, quase suspenso.

Almocei sem apetite e jantei sem entusiasmo. Não houve visitas, nem saídas, nem acontecimentos. Apenas o tempo a passar, insistente, cumpridor, demasiado longo para aquilo que trazia.

E, no entanto, não foi um dia mau. Foi apenas um dia sem história. Um desses dias que não se contam, mas que fazem volume. Como páginas em branco que, mesmo assim, pesam no livro.

Ao deitar-me senti um cansaço estranho — não do corpo, mas do próprio dia. Amanhã, pensei, há-de mexer-se qualquer coisa. Nem que seja só um pouco.

E isso, para já, chega.


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