Um silêncio que ainda pergunta
Sábado, 5 de Junho de 1976
O dia começou como tantos outros. Levantei-me cedo para ir para o liceu, ainda com a cabeça meio adormecida e o corpo a funcionar por hábito. Nada fazia prever qualquer sobressalto — e talvez por isso ele tenha pesado mais.
No caminho para o liceu aconteceu o inesperado simples: vi a Dila. O encontro foi brusco, quase desajeitado, como quando duas linhas que já não se cruzam voltam a tocar-se por acaso. Ficámos ambos surpreendidos. Os olhares encontraram-se por breves segundos, tempo suficiente para reconhecer tudo e não dizer nada. Não houve gesto, nem palavra, nem aproximação. Apenas esse silêncio espesso que já se tornou hábito.
Seguimos caminhos diferentes, cada um carregando o seu lado do espanto.
As aulas decorreram como se nada tivesse acontecido. Estive presente, atento, mas com uma parte da cabeça ocupada por aquele instante suspenso da manhã. Não foi dor, nem saudade — foi estranheza. Como se algo mal resolvido insistisse em não desaparecer.
No meu espírito voltou uma interrogação antiga, quase absurda: porque será que ela deixou de me falar desde que comecei a usar óculos? Pensamento ridículo, eu sei. E no entanto, a mente humana tem este talento estranho para fabricar explicações quando a verdade se recusa a aparecer. Talvez seja apenas isso — uma tentativa de dar forma a um afastamento que não compreendo, ou de aliviar culpas que não sei bem se são minhas.
Ou talvez não haja explicação nenhuma. E isso custa mais do que qualquer resposta errada.
Regressei a casa com essa reflexão a ecoar, mas sem lhe dar rédea solta. Não vale a pena torturar o pensamento até ele confessar o que não sabe. Almocei, li um pouco e deixei o dia avançar.
À tarde fiquei por casa. O silêncio ajudou a arrumar ideias, ainda que não as resolvesse. Começo a aceitar que nem todos os nós se desatam quando queremos — alguns apenas se gastam com o tempo.
A noite chegou serena. Jantei, escrevi e deixei estas linhas como quem pousa um objecto pesado sobre a mesa: já não o carrego comigo.
Deitei-me com uma certeza discreta: há silêncios que não pedem resposta imediata. Pedem apenas maturidade para não inventar verdades por desespero.
E amanhã será outro dia. Com menos perguntas, espero. Ou pelo menos, com mais calma para as suportar.
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