Rotina e sonhos...

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 1976

O dia começou sem pressas, como se tivesse pousado à minha porta com a delicadeza de quem sabe que não traz novidades. Levantei-me devagar, num gesto meio sonâmbulo, deixando que a luz pálida da manhã me acordasse por dentro. Há dias assim, silenciosos, quase transparentes, mas não por isso vazios. São como páginas onde nada acontece e, no entanto, algo em nós continua a avançar.

Passei as horas sem urgência. Fui vivendo pequenos gestos, quase automáticos, mas com aquela sensação estranha de que, mesmo quando tudo parece igual, há qualquer coisa a mover-se debaixo da superfície. Uma espécie de murmúrio distante, talvez um presságio manso de que o futuro, esse viajante teimoso, já começou a caminhar na minha direcção.

De tarde, o liceu repetiu-se — corredores, vozes, o mesmo peso habitual nos ombros. Mas dentro de mim havia um outro ritmo, lento, profundo, como se eu estivesse a crescer em silêncio, sem alardes. Há mudanças que não fazem barulho, mas sentem-se. E senti-me assim: a mudar sem perceber bem como.

À noite deixei que a casa se acalmasse. Sentei-me comigo mesmo, sem nenhuma urgência de ser mais do que isto — um rapaz que tenta escrever o que sente, mesmo quando não sabe muito bem o que sente. E nesse recolhimento quase imperceptível, percebi uma coisa simples: mesmo num dia em que nada acontece, há sempre um fio de esperança a puxar-nos para diante.

Hoje não houve aventuras, nem encontros, nem grandes pensamentos. Mas ficou-me uma serenidade que não sei explicar, como se algo no horizonte brilhase só para mim. Pode ser imaginação, claro. Ou pode ser apenas o desejo inocente de acreditar que o futuro, mesmo longínquo, começa sempre por uma pequena luz a acender-se dentro de nós.

E hoje, por motivos que não saberei traduzir por palavras, senti essa luz. Só isso já tornou o dia suficiente.


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