O dia em que tudo parecia possível

Domingo, 18 de Janeiro de 1976

Acordei com uma paz tão inteira que até estranhei. Não aquela paz suspeita que às vezes nos visita depois de um cansaço grande, mas uma calma leve, honesta, que parecia vir de dentro para fora. Um silêncio bom, desses que se alojam no peito como um abrigo.

Domingo. Dia de descanso — físico, mental e, sobretudo, emocional. Hoje senti cada pedaço disso.

Saí de casa sem destino. Só a vontade de andar, de respirar o mundo, de ver o que o dia tinha para me oferecer. O ar estava fresco, mas não cortante; o sol, tímido mas presente; e eu, pela primeira vez em muito tempo, senti-me cheio. Não da velha inquietação, mas de qualquer coisa nova — uma espécie de promessa.

Caminhei pelas ruas da vila como se as estivesse a ver pela primeira vez. Tudo me pareceu interessante: o brilho das telhas molhadas, o fumo que saía de duas chaminés teimosas, o riso de uns miúdos que corriam atrás de uma bola torta. Até os pombos, sempre iguais, me pareceram mais graúdos e importantes hoje. Talvez tenha sido impressão, mas não faz mal — estava aberto ao mundo, e o mundo retribuiu.

No adro da igreja parei um bocado. Havia grupos de rapazes e raparigas espalhados por ali, como ilhas vivas. Vi casalinhos abraçados, alguns tão ternos que quase deixavam um rasto de doce no ar; outros sem grande graça, mas ainda assim com paixão a piscar-lhes nos olhos. Vi também os solitários — raparigas encostadas ao muro, rapazes de mãos nos bolsos — cada um à sua maneira a tentar encontrar lugar no mundo.

E, num gesto que me apanhou de surpresa, desejei-lhes felicidade. A todos. Sincera, simples, sem aquela sombra de inveja ou tristeza que já me acompanhou noutros tempos. Desejei que cada um deles encontrasse um caminho bonito, porque percebi que eu próprio, um dia, voltarei a ser feliz. Hoje senti isso como verdade — e não como esperança ingénua.

Passei a tarde a vaguear, a inventar histórias para desconhecidos, a imaginar aventuras futuras, viagens improváveis, descobertas que me fazem rir só de pensar. Toda a minha criatividade parecia ter acordado com pressa, a empurrar-me para diante, a segredar que a vida ainda está a começar.

Regressei a casa quando o sol já se escondia, mas levei comigo essa sensação luminosa que o dia inteiro me ofereceu. Sentei-me um instante antes de escrever e deixei que o silêncio me falasse.

E percebi isto: a vida não voltou ao normal — começou de novo. E eu, finalmente, estou pronto para caminhar ao encontro do que vier.


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