Basta continuar a caminhar

Sábado, 17 de Janeiro de 1976

A manhã começou com aulas, como tantas outras, mas desta vez senti-me mais desperto, mais alinhado com o mundo. Talvez seja apenas o tempo a fazer o seu trabalho, talvez seja eu a deixar-me ir — não sei. Mas entre explicações de gramática, olhares distraídos pela janela e aquele burburinho habitual do liceu, percebi que o meu peito já não carregava o mesmo peso. Era como se alguém tivesse aliviado um nó por dentro.

O Benjamim estava particularmente falador, e o Manel inventava piadas sem graça que, misteriosamente, hoje até me fizeram rir. A vida tem disso: há dias em que a alegria entra sem bater à porta, mesmo que não faça barulho.

À tarde fomos para o ensaio. Chamamos-lhe “ensaio” por hábito — na verdade, aquilo é mais um pretexto para estarmos juntos e fingirmos que sabemos o que estamos a fazer. As flautas continuam a desafinar, o ritmo escapa-nos por entre os dedos, e alguém está sempre a tocar meia nota acima do que devia. É quase uma arte. Mas divertimo-nos, e isso basta. Rimo-nos das nossas próprias desgraças musicais com a leveza de quem sabe que não precisa de ser perfeito para estar vivo.

Depois do ensaio fomos vagueando pelas ruas, conversando sobre o que quer que fosse tema de conversa. O Manel falava das raparigas do liceu feminino como se fossem criaturas de outro planeta. O Benjamim, mais calado que o costume, limitava-se a acenar. E eu, sem dizer muito, deixei-me levar naquele ritmo tranquilo — a tarde a escorrer devagar, o sol a desaparecer atrás das casas, o riso a abrir pequenos espaços dentro de mim.

Quanto à história com a irmã do Benjamim… hoje percebi com uma clareza quase brusca que não passou daquilo que sempre foi: um sopro curto. Nasceu sem grande alarido, morreu sem que ninguém desse por ela. E está bem assim. Não deixou saudade nem marcas, só uma leve aprendizagem: nem tudo o que começa precisa de se transformar em drama.

Fechei o dia com uma serenidade que me surpreendeu. Tal como aquelas notas falhadas do ensaio, a vida parece andar a compor-se aos poucos, sem pressa, mas com intenção. Sinto que o futuro — esse desconhecido que me assustava — pode muito bem trazer qualquer coisa boa. Basta continuar a caminhar. E, a verdade é que me sinto pronto para isso.


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