O coração aprende novas direcções

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 1976

A manhã trouxe-me um frio vivo, o suficiente para acordar até as ideias mais preguiçosas. Eu, que ando a tentar disciplinar o coração como quem educa um cão teimoso, decidi que hoje não me deixaria arrastar para os velhos cantos sombrios da memória. O passado que espere sentado — que eu tenho pressa de respirar ar novo.

No liceu, logo à entrada, juntaram-se-me o Benjamim e mais dois colegas. E alguém — já não sei quem — lançou a ideia de darmos um salto ao liceu feminino ao lado. Não era hábito nosso, e talvez por isso me tenha parecido perfeito. Uma espécie de abanão emocional, um “acorda, homem!” que eu precisava mais do que queria admitir.

Lá fomos. Meio risonhos, meio nervosos, como quem atravessa uma fronteira invisível. O portão do liceu delas pareceu-me maior do que realmente era, talvez por trazer colado esse símbolo antigo de mundos separados. Mas a verdade é que soube bem entrar ali, nem que fosse apenas até ao átrio. Uma lufada de vozes novas, rostos desconhecidos, passos rápidos de raparigas que não faziam ideia de quem éramos — ou, se faziam, disfarçaram lindamente.

Senti, por momentos, o coração a tropeçar. Não de paixão, nem de atrevimento, mas de alívio. Como se percebesse que existe vida para além do que antes lhe ocupava tudo. Foi quase cómico ver-me a tentar parecer indiferente enquanto espreitava, muito discretamente, para os corredores cheios. O Benjamim achou graça — disse que eu parecia um estrangeiro num país recém-descoberto. Não lhe faltou razão.

Voltamos para o nosso liceu ainda a rir. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que o peito tinha mais espaço. Como se alguém lá dentro tivesse aberto uma janela. Aquele pequeno desvio da rotina deu-me uma sensação estranha — não de traição ao passado, mas de libertação. Um lembrar de que o mundo continua a girar, mesmo quando nós empancamos.

À tarde, tentei estudar, mas o pensamento estava demasiado leve para se concentrar. Não era dispersão, era quase uma limpeza. Fui dar um pequeno passeio sozinho, só para perceber se aquela abertura interior se mantinha. E sim, estava lá. Não enorme, não transformadora — ainda — mas nítida. Como quem acende uma vela num quarto que julgava apagado para sempre.

À noite, antes de fechar o dia, disse para mim mesmo: “Talvez seja isto começar de novo. Um passo, depois outro.” E, pela primeira vez em muitos meses, não me doeu dizê-lo.

Amanhã talvez descubra mais um pedaço deste caminho que ainda não sei para onde leva — mas que começa, finalmente, a apetecer-me.


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