O peso leve do desconhecido

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 1976

O dia acordou sem pressa, como se tivesse receio de fazer barulho. A luz era baça, quase preguiçosa, e eu senti-me igual: preso a um cansaço que não vem do corpo, mas daquele recanto secreto onde a esperança e a dúvida discutem em surdina.

Fui caminhando pela manhã como quem atravessa um corredor demasiado longo. Nem frio, nem calor — apenas um morno irritante que deixa tudo suspenso no ar. O Benjamim surgiu por um instante, mas também ele parecia desligado do mundo. Trocámos duas ou três palavras, mais por hábito do que por alma, e depois cada um seguiu o seu rumo. Há dias assim: até as amizades respiram devagar.

No Alto da Serra, enquanto o trólei esperava por novos passageiros, fiquei a observar pelo vidro traseiro a minha terra encolhida no fundo dos vales, abraçada por serras escuras e silenciosas. Há algo de consolador naquela massa firme de pedra e verde. Não faz perguntas, não exige respostas — permanece apenas. E talvez por isso me tenha dado uma pontinha de inveja… e outra de conforto. A paisagem, às vezes, entende-nos melhor do que qualquer pessoa.

E claro… o passado estava lá, escondido como quem se recusa a desaparecer. Não se mostrou, mas também não faltou. Há presenças que não precisam de corpo, só de memória. Perguntei a mim mesmo se esse passado sentiria o mesmo peso que eu carregava hoje. Não houve resposta — apenas aquela quietude amarga de quem sabe que já não há segredos, só cicatrizes.

À tarde tentei ocupar-me com pequenos nada: arrumar isto, mexer naquilo, inventar uma urgência que nunca existiu. Tudo disfarces. A verdade é que o meu coração insistia em caminhar numa corda bamba entre um tempo que já não volta e um futuro enevoado que ainda não sei se quero, se temo. Mas disse para comigo que não valia a pena travar batalhas com o que ainda não aconteceu. Estranhamente, a frase soou-me como um alívio — leve, quase imperceptível, mas real.

Fechei o dia com uma sensação agridoce. Nada de extraordinário aconteceu, mas às vezes são estes dias mornos que nos empurram para dentro de nós. E, para meu espanto, encontrei lá um fiozinho de coragem. Fino, tímido… mas suficiente para acreditar que o amanhã talvez me surpreenda. Pode até ser bom. Falta só dar o passo.


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