Apenas a vida, tal como é
Terça-feira, 13 de Janeiro de 1976
O dia acordou com um cinzento leve, quase preguiçoso, como se o céu estivesse a espreguiçar-se antes de decidir que cor vestir. Saí de casa sem pressa, com aquela calma que já começa a parecer-me familiar — uma serenidade que não pede razões, simplesmente aparece e fica.
As aulas decorreram como um murmúrio constante, nada de novo, nada de especial, mas também nada que me puxasse para baixo. Senti-me a atravessar o dia como quem caminha à beira-rio: o ritmo é o que tem de ser, sem exigências, sem atropelos. E talvez seja esta a grande novidade destes tempos — não haver anúncios dramáticos nem presságios escondidos nas sombras. Apenas a vida, tal como é.
No intervalo, sentei-me sozinho a olhar para o recreio. O mundo à minha volta parecia andar um pouco depressa demais, mas eu observei-o com uma espécie de distância tranquila. Não a distância da fuga, mas a da aceitação. Há um conforto novo em perceber que não preciso de antecipar tudo, nem de tentar agarrar o futuro pelas pontas antes sequer de o conhecer.
À tarde, voltei para casa. O caminho, sempre igual, hoje pareceu-me mais leve. Talvez porque finalmente aprendi a caminhar sem a cabeça cheia de fantasmas. Talvez porque começo a perceber que o futuro não é um inimigo à espreita — é apenas um espaço por preencher, um lugar onde hei-de chegar quando o tempo quiser.
Passei algum tempo a folhear livros antigos, a rabiscar uns desenhos sem grande vontade, a deixar a mente vaguear como quem abre uma porta e deixa o vento entrar só para ver o que acontece. Não aconteceu nada — e isso, curiosamente, foi bom.
Agora, já à noite, escrevo estas linhas com uma paz que me surpreende. Não me assusta o amanhã. Não me pesa o ontem. Há qualquer coisa de bonito nesta aceitação simples do caminho: caminhar, apenas isso. Sem tentar adivinhar curvas, sem temer descidas, sem desejar atalhos.
Se o futuro trouxer mudanças — boas, más, inesperadas — saberei lidar com elas quando chegarem. Por agora, só me interessa esta sensação: a de estar exactamente onde devo estar, neste pedaço de tempo que é só meu.
E talvez, afinal, seja isto crescer: olhar em frente sem medo e perceber que o horizonte não exige pressa… apenas passos.
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