Ainda posso ser dono de mim mesmo

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 1976

O dia começou com o frio ainda a agarrar as ruas, o céu encoberto de nuvens cinzentas que não prometiam sol. Dirigia-me para a paragem do trólei, o casaco fechado até ao queixo, mãos enfiadas nos bolsos, quando vi a irmã da Dila. O encontro foi breve, quase um sopro de ar entre nós. Um cumprimento rápido, discreto, um aceno quase tímido, e cada um seguiu o seu caminho, deixando para trás apenas a sensação estranha de proximidade e distância ao mesmo tempo.

As horas passaram lentas, preenchidas pelo barulho dos pneus do trólei no empedrado da rua, pelos passos apressados de quem se move sem olhar para os lados e pelo habitual murmúrio da cidade que me rodeava. Observava os detalhes pequenos: a maneira como a luz reflectia nos vidros das lojas, o som distante de uma campainha, o cheiro da pastelaria que se espalhava pela rua — todos esses pequenos fragmentos pareciam ocupar um espaço maior dentro de mim do que o mundo exterior.

Ao fim do dia, quando a luz se tornava mais ténue, o Manel apareceu com notícias. Contou-me, como se falasse de uma história importante, que a Dila estivera à nossa porta a conversar com a minha irmã mais nova. Um ligeiro impulso de sair, de correr até lá, atravessar o frio e a rua, surgiu de repente dentro de mim. Mas respirei fundo e contive-me. Não era apenas um acto de paciência: era um lembrete silencioso de que, por enquanto, eu era o único responsável pelo ritmo do meu coração. Mais ninguém podia ditar quantas batidas ele devia ter, nem interferir no compasso dos meus sentimentos.

Fechei os olhos por um instante e senti a firmeza dessa decisão a assentar em mim. Era apenas mais um dia comum, mas com ele vinha a certeza tranquila de que ainda podia ser dono de mim mesmo, mesmo quando o mundo à volta parecia tentar lembrar-me do contrário.

O dia terminou com a noite a estender-se sobre S. Pedro da Cova, e eu, sozinho no meu quarto, deixei-me absorver pelos pensamentos, pelas pequenas vitórias silenciosas de um coração que aprende, pouco a pouco, a ser fiel a si mesmo.


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