O frio leve do quarto

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 1976

A segunda-feira apareceu sem vontade de impressionar. Nem luz forte, nem chuva, nem frio de rachar. Apenas um céu baço, daqueles que parecem ter decidido ficar em ponto morto. E eu acordei exactamente assim: sem pressas, sem pressentimentos, só o suficiente para existir.

O caminho para as aulas fez-se quase em silêncio. As ruas pareciam suspensas, como se alguém tivesse rodado o volume do mundo para metade. Estranhamente, senti-me bem ali, a caminhar dentro desta espécie de algodão cinzento. Há dias em que tudo parece demasiado claro, demasiado presente. E há outros — como este — em que o mundo nos deixa passar sem nos pedir explicações.

As aulas foram um eco do dia: mornas, brandas, fáceis de atravessar. Eu tomava notas, ou fingia tomá-las, e a minha mente passeava-se por cima das palavras do professor como um pássaro que não sabe bem onde pousar. E, no entanto, não havia inquietação. Apenas uma sensação difusa de que estou a caminhar dentro de um território novo, sem mapa, mas também sem armadilhas.

Ao fim da tarde cheguei a casa. Não havia planos com o Benjamim, nem visitas inesperadas, nem missões criativas com a flauta. Só eu, o frio leve do quarto, e um mundo inteiro lá fora a girar sem que me chamasse.

Passei algum tempo à janela, a ver as pessoas a atravessarem a rua em direcções diferentes. Fiquei a pensar como cada uma delas carrega um futuro que desconhece, e como é estranho que, mesmo assim, continuem a andar.
Talvez seja isso que estou a aprender: a caminhar sem precisar de saber para onde.

Mais tarde, peguei na flauta. Soprei uma nota só para testar. Saiu um som tímido, quase vergonhoso, como se o próprio instrumento soubesse que não estávamos ali para um ensaio sério. Ri-me sozinho e voltei a pousá-la. Há dias que não foram feitos para música — foram feitos apenas para respirar.

Agora, no silêncio do quarto, deixo esta sensação escorrer para o papel:
Hoje, senti-me dentro de um intervalo. Nem avanço, nem recuo. Apenas o meio. Só o meio.
E, pela primeira vez, isso não me incomodou.

Há algo de doce na incerteza, como se a vida estivesse a preparar terreno para qualquer coisa — não necessariamente grandiosa, não necessariamente dura — mas nova.

E, por enquanto, basta-me isso: a promessa vaga de que o caminho continua. Sem dramas. Sem sombras. Sem garantias. Apenas continua.


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