Portas entreabertas

Domingo, 11 de Janeiro de 1976

O domingo nasceu com aquela luz suave que parece sempre pedir silêncio. Talvez por isso, ou talvez por outra razão qualquer que ainda não compreendo, acabei por ir à igreja com o Benjamim. Não que eu seja particularmente devoto — nunca fui — mas havia ali uma inquietação discreta, uma curiosidade quase tímida.
Estarei à procura de fé?
Não sei. Talvez esteja apenas a tentar perceber se existe outro tipo de conforto que ainda não experimentei. Como quem, depois de arrumar uma gaveta, abre outra só para confirmar que também está tudo no sítio.

A missa foi tranquila, previsível, marcada pelos cânticos e pelos velhos do costume, todos alinhadinhos nas suas crenças. Eu fiquei ali, a ouvir, a observar, a deixar a mente vaguear. Não senti uma revelação divina, mas senti algo mais simples: paz. Uma espécie de suspensão do mundo onde, por alguns minutos, nada exigiu nada de mim.
Talvez não esteja à procura de fé… talvez esteja apenas a aprender a sentar-me comigo mesmo.

À tarde, o Benjamim e o Manel vieram a minha casa. A minha mãe encheu-nos a mesa com qualquer coisa de comer, e nós, como bons adolescentes, fingimos que tínhamos o mundo inteiro para decidir mais tarde. Jogamos monopólio — cada um com a sua táctica infalível, todas destinadas ao fracasso — e entre risos e pequenas batotas de ocasião, o tempo deslizou sem esforço.
Discutimos também sobre nada de importante: música, filmes, a escola, o tempo. Um domingo despretensioso, desses que passam devagar porque não querem magoar ninguém.

Ao anoitecer, já sozinho no quarto, fiz aquilo que se tornou o meu ritual secreto: deixei o cérebro falar. A mão acompanhou-o, obediente, e as palavras começaram a cair no papel.

Pensei na nossa tarde. Três adolescentes sem mapa, sem bússola, sem grandes planos. Vivemos apenas o que existe à frente do nariz — o presente imediato, o pequeno prazer das horas que se estendem sem promessa de glória nem medo de fracasso.
E perguntei-me, quase sem querer:
Será que há mal nisso?

Talvez não. Talvez este seja o único tempo da vida em que a cabeça se pode dar ao luxo de não olhar demasiado longe. Talvez a juventude seja exactamente isto: um intervalo em que o futuro ainda não tem forma e o passado já não dói.

Fecho o diário com esta sensação: uma porta nova entreaberta, não para o céu, não para a fé, mas para mim próprio.
E isso, de certa maneira, já é uma espécie de milagre.


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