Quanto tempo vai durar este estado de graça?

Sábado, 10 de Janeiro de 1976

O sábado acordou sem pressas, quase sonolento, como se tivesse despertado antes de mim e ainda estivesse a decidir se valia a pena começar. A manhã trouxe aulas — aquelas de sábado que ninguém sabe muito bem para que servem — mas fui sem resistência, embalado por esta serenidade que parece ter tomado conta de mim nos últimos dias.

Sentei-me na sala de aula e deixei o tempo correr. O professor falava, o giz riscava o quadro com aquele som áspero, e eu observava tudo como quem olha pela janela de um comboio: o movimento está lá, mas não me exige nada. É curioso como, quando nos sentimos livres por dentro, até as horas mais aborrecidas se transformam em território neutro, sem o peso habitual.

À tarde, a vida abriu-se numa calma quase indulgente. Não fiz nada de memorável: vagueei pelas ruas, deixei o sol pálido de janeiro pousar na cara, ouvi conversas que não me pertenciam. Havia uma vibração doce no ar, como se cada gesto simples tivesse uma beleza escondida.

E, claro, os pensamentos de ontem continuaram a rondar-me, de forma insistente mas não melancólica.
Será que isto vai durar? – perguntei-me mais uma vez.
Esta sensação de estar a respirar outro ar, mais leve, mais limpo, como se a vida tivesse mudado de tonalidade sem me avisar. É como estar num intervalo prolongado entre tempestades, só que desta vez não sinto medo do que possa vir.

Talvez o passado — com tudo o que doeu — tenha servido apenas para me empurrar para aqui, para este presente que se sente quase generoso. Talvez fosse preciso atravessar a sombra para reconhecer a claridade quando ela finalmente apareceu.

Ao cair da noite, dei comigo a pensar que, mesmo sem grandes aventuras, este sábado me ensinou qualquer coisa: a liberdade também se encontra nos dias pequenos, nos gestos mínimos, nos silêncios que não ferem.

Mas, lá no fundo, a pergunta permanece — não como ameaça, mas como eco:
Será que vai durar?
E, pela primeira vez, a dúvida não me incomoda.
Porque hoje, pelo menos hoje, a vida soube a paz.
E isso, o eu do futuro, já não me tira ninguém.


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