Solto, desamarrado...
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 1976
O dia passou como passam os dias sem história: sem pressas, sem ondulações, quase transparente. Mas há um encanto subtil nisto — como se a vida, por um instante raro, tivesse decidido deixar-me respirar sem me puxar para lado nenhum.
Acordei com uma leveza que ainda me surpreende. Não é euforia, não é alegria desmedida. É antes como caminhar numa rua conhecida e, de repente, descobrir que o ar ficou mais claro. Senti-me solto, desamarrado. O passado, esse animal que tantas vezes me mordia os calcanhares, parece agora encolhido lá atrás, demasiado cansado para continuar a perseguir-me.
Passei o dia quase a pairar. As aulas correram sem que nada me tocasse de verdade — mas também sem que nada me magoasse. Eu, que tantas vezes andei cheio de nós, descobri-me liso por dentro, sem tropeços mentais, sem perguntas desconfortáveis a dobrarem-se no peito.
À hora do almoço, dei por mim a pensar:
Será isto liberdade?
Não aquela liberdade grandiosa dos livros, mas a outra, a pequena, a que cabe na palma da mão — a de acordar e não sentir peso, a de caminhar sem arrastar memórias, a de não rebentar sempre por dentro.
O dia terminou com uma serenidade quase indecente, e eu deixei-me ficar nela como quem se deita numa superfície morna, a olhar para um céu que não promete nada, mas também não ameaça.
E agora, já na penumbra do quarto, faço esta pergunta que teima em espreitar por baixo da porta:
Quanto tempo irá durar isto?
Será que este estado de graça é apenas uma pausa? Um intervalo antes de algo — bom ou mau — vir bater à porta?
Não sei. Talvez a vida seja isto mesmo: um fio onde se alternam luz e sombra, sem aviso prévio.
Mas hoje… hoje foi luz.
E por agora, basta-me isso.
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