Nenhum passado a puxar-me...

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 1976

O dia nasceu simples, sem vento, sem presságios, quase como uma página em branco que nem sequer faz questão de ser escrita. Segui para as aulas com aquela tranquilidade recente que ainda me surpreende — como se o coração tivesse finalmente percebido que não precisa de tropeçar todos os dias.

A caminho do liceu, no trólei, voltei a ver a irmã da Dila. Um “olá” breve, quase mecânico, seguimos em sentidos opostos e mais nada. Nenhuma questão, nenhuma dúvida, nenhum sobressalto, nenhum passado a puxar-me pela manga. Apenas um cumprimento educado entre duas pessoas que se conhecem… e é tudo.
Se me dissessem há uns meses que isto seria possível, eu teria rido. Mas a verdade é que dói zero.
É curioso como a realidade, quando chega finalmente despojada do que imaginamos, sabe sempre mais leve do que o medo prometia.

O resto do dia foi aquilo a que se pode chamar “normal”: aulas, colegas, cadernos que teimam em não se manter organizados, um professor aborrecido, outro mais bem-disposto, esse vai-vem habitual que compõe a vida sem a gente dar por isso.

Ao fim da tarde, voltei para casa com uma ideia fixa: praticar. Ensaiar. Afinar. Qualquer verbo que indicasse a possibilidade remota de transformar aquela flauta numa coisa menos ofensiva ao ouvido humano.

Fechei-me no quarto — o meu abrigo, mas sobretudo o abrigo dos outros, porque ninguém merece sofrer a violência sonora que me saiu das mãos. Sentei-me na cama, respirei fundo e soprei.
Primeira nota: parecia uma galinha indignada.
Segunda: um carro velho a falhar mudança.
À terceira, já me ria sozinho. Um riso meio derrotado, meio orgulhoso, mas é assim que as grandes carreiras começam, suponho… com paciência e alguns danos colaterais auditivos.

Mesmo assim, houve instantes — pequenos, fugidios — em que a flauta soou quase decente. Um sopro mais seguro aqui, uma nota que não feriu ninguém ali. Pequenas vitórias de final de tarde que souberam melhor do que mereciam.

Terminei o ensaio com a sensação de que estou, de facto, a seguir em frente. Não porque toque bem — longe disso — mas porque a vida está finalmente a caber no presente, sem sombras, sem fantasmas e sem desalinho.

Amanhã, talvez a flauta colabore.
Ou talvez não.
Mas isso, curiosamente, já não pesa.


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