O Mundo segue o seu curso...

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 1976

O dia começou sem pressas — um daqueles amanheceres que parecem ter sido engomados durante a noite, tudo lisinho, tudo em ordem, tudo sem drama. Fui para as aulas com a habitual calma recém-descoberta, como quem caminha dentro de um riacho morno.

A meio da tarde, quando regressava a casa, cruzei-me com a irmã da Dila. Passou por mim, olhou, seguiu caminho. Nada mais. Nenhum sobressalto, nenhuma ferida antiga a querer reabrir-se. Apenas um cumprimento mudo entre vidas que agora correm em margens diferentes.
E confesso: soube bem que fosse só isso. Nada mais. Talvez isto de seguir em frente faça mais sentido do que eu imaginava.

Ao fim da tarde fui ter com o Benjamim. Levávamos as flautas debaixo do braço com o ar comprometido de quem transporta instrumentos sérios — embora a verdade seja que pareciam mais varinhas mágicas de plástico do que objectos musicais.

Os "ensaios" começaram no nosso costumeiro estado de graça: eu soprei uma nota que devia ter sido um fá, mas saiu-me um som que lembrava um portão enferrujado a gemer. O Benjamim respondeu com um si bemol que mais parecia uma chaleira a apitar sem convicção. Ficamos ali um instante, a olhar um para o outro, antes de rebentarmos a rir — daqueles risos que fazem tremer o ar.

Tentamos compor qualquer coisa que se pudesse chamar de melodia. Talvez tenhamos conseguido uns segundos de harmonia antes de regressarmos ao caos sonoro. Mas, entre um sopro falhado e outro, de vez em quando surgia algo que quase parecia música. Quase. Uma espécie de milagre tímido.

No fundo, foi um ensaio a sério: não tanto pelas notas (essas ainda andam perdidas algures no éter), mas pelo sentimento de estarmos realmente a construir qualquer coisa. Mesmo que essa “coisa” por enquanto soe a pardal constipado acompanhado de chaleira ansiosa.

O dia terminou sem sobressaltos — um crepúsculo tranquilo, corado, quase preguiçoso. E, pela primeira vez em muito tempo, parece que o presente está a fazer o seu trabalho sozinho, sem pedir justificações, sem remexer memórias, sem apontar o futuro a dedo.

Amanhã haverá mais notas tortas… mas quem sabe? Talvez uma delas, por azar ou sorte, acerte no sítio certo.


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