Sem pressas… apenas a vida a correr calmamente
Terça-feira, 6 de Janeiro de 1976
O dia amanheceu com a mesma placidez de ontem — aquela calma que parece pousar nos telhados como um pássaro cansado. Nada de pressas, nada de sobressaltos. Apenas a vida a correr com a lentidão certa para quem está a reaprender a respirar.
Eu e o Benjamim decidimos que era altura de dar o passo seguinte na nossa banda ainda sem nome. Não tínhamos dinheiro para guitarras nem espaço para baterias, mas tínhamos vontade — e, convenhamos, a vontade é o instrumento mais barato do mundo. Assim, depois das aulas, fomos até à pequena loja que vendia de tudo um pouco: cadernos, fios eléctricos, botões, brinquedos… e, por milagre ou descuido, algumas flautas de que brilhavam na montra como se fossem de prata fina.
Entramos na loja com o entusiasmo discreto de quem não quer parecer criança, mas é criança por dentro. O Benjamim experimentou logo uma, soprando um dó desafinado que fez a senhora da loja erguer uma sobrancelha. Eu, claro, não podia ficar atrás: tirei outra da caixa, toquei qualquer coisa que pretendia ser uma escala, e o resultado soou a passarinho gripado. Rimo-nos os dois — riso rápido, cúmplice, quase musical.
Compramos as flautas com o ar solene de quem adquire instrumentos de concerto. E quando saímos para a rua, o frio não parecia tão frio. Íamos a caminho de casa, improvisando melodias tortas, desafinadas, mas que tinham a beleza das coisas que ainda não sabem o que vão ser.
Os dias estão a correr assim: mornos, leves, sem sombras a assobiar por trás das portas nem fantasmas a puxar-nos o pensamento para trás. Nem o passado pesa, nem o futuro ameaça. É como se tudo estivesse suspenso num equilíbrio tranquilo, onde a única urgência é descobrir que música podemos fazer juntos.
Ao chegar a casa, sentei-me na cama e soprei de novo na flauta. Ainda soou a nada — mas um nada cheio de promessa. E, pela primeira vez, senti que talvez a nossa banda não fosse uma miragem de adolescentes, mas sim uma pequena semente prestes a fazer força contra a terra.
Assim terminou o dia: com um dó hesitante, um riso partilhado e um futuro que, por agora, não exige nada de nós. Só que toquemos. Só isso.
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