Planos para o futuro… sem olhar para trás.
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 1976
O dia amanheceu com aquela luz de Inverno que parece não querer comprometer-se: tímida, pálida, quase a pedir desculpa por existir. Recomeçaram as aulas, e eu, que vinha das férias com a cabeça mais leve e o coração mais disciplinado, entrei no liceu como quem atravessa uma fronteira. Prometera a mim mesmo seguir em frente, e por uma vez não recuei. Deixei para trás o que me prendia os passos — não com bravura, mas com aquela teimosia silenciosa que às vezes é o que nos salva.
O Benjamim apareceu ao pé de mim antes da primeira aula, com aquele brilho nos olhos que só lhe surge quando está prestes a lançar uma ideia perigosa.
— Está decidido — disse-me. — Vamos mesmo avançar com o grupo musical.
Aquilo era mais que um plano de miúdos; era quase uma rebeldia criativa. E, de repente, senti que tinha um rumo. Que a energia que antes se derramava em pensamentos soltos podia agora ganhar forma, corpo, talvez até som.
O dia de aulas passou com a lentidão habitual, mas eu ia caminhando por entre os corredores como quem carrega um segredo novo. Durante a Matemática, esbocei num canto do caderno possíveis nomes para a banda. Nada prestável, mas ao menos parecia vida.
Ao fim da tarde, quando atravessei a rua em direcção a casa, percebi que algo tinha mudado dentro de mim. Não era euforia — era antes um sossego raro, uma clareza obstinada. A promessa que me fizera antes do ano virar continuava ali, firme: nada de voltas ao passado, nada de sombras. Agora o futuro tinha música, ainda que só nos nossos sonhos. E, para mim, era suficiente para avançar.
No regresso, o vento frio batia-me na cara como se me quisesse acordar de alguma coisa. E acordou: pela primeira vez em muito tempo, senti-me com um objectivo que não dependia de ninguém.
O dia terminou assim — com o pressentimento de que um mundo pequeno pode ganhar grandeza quando se encontra uma direcção.
E eu, que tantas vezes me perdi, voltei finalmente a caminhar.
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