A harmonia improvável

Domingo, 4 de Janeiro de 1976

A manhã abriu-se sem pressas, como se o mundo tivesse decidido conceder-nos uma trégua. Reunimo-nos em minha casa — eu, o Manuel e o Benjamim — e deixamos que o dia corresse por si, com essa leveza rara que às vezes se instala sem avisar. Jogamos às cartas, cantamos umas quantas músicas, desafinamos aqui e ali… mas quando acertávamos, ai, parecia até que tínhamos nascido para cantar. Rimo-nos disso, claro — três miúdos a tocar como se o destino dependesse de encontrar o mesmo tom.

Talvez dependesse.

A verdade é que nem dei por mim a pensar no passado. Nem na confusão miúda que anda a germinar no meu peito desde que vi a irmã do Benjamim. Nada disso apareceu. Foi apenas um dia vivido, sem perguntas, sem fantasmas, sem futuro imediato a bater à porta. Um raro descanso.

Ao cair da noite, porém, o Benjamim voltou a aparecer. Trazia aquela energia dele, meio eléctrica, meio ingénua, como quem chega com um plano que pode mudar o rumo de tudo — ou de nada. Propôs que fizéssemos um grupo musical, nós os três. Disse que tínhamos “qualquer coisa”, que não se explicava bem, mas que se sentia. Ficou tudo ali suspenso, entre um “talvez” e um “quem sabe”.

Não falamos de medos. Não falamos de raparigas. Não falamos da vida dura que nos espera do lado de fora da infância. Naquela noite, na minha sala, fomos apenas três amigos a acreditar que, por um instante, a vida podia ser simples.

E isso soube melhor do que pão quente.


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