Coisas que não se dizem (ainda)...
Sábado, 3 de Janeiro de 1976
A manhã começou sem pressas. Acordei com aquela sensação morna de quem ainda está a digerir o dia anterior, como se as ideias novas tivessem passado a noite a reorganizar-se dentro de mim. Nem sei bem o que pensar delas — e talvez isso seja exactamente o encanto.
Aproveitei para ir dar uma volta. O frio continuava cortante, mas eu já me habituara a caminhar com as mãos enfiadas nos bolsos e a cabeça entretida com pensamentos que não me apetece partilhar com ninguém. Não todos, pelo menos.
À tarde, fui ao encontro do Benjamim. Ele tinha aquela curiosidade típica, sempre pronto para arrancar histórias aos outros, mesmo quando não querem falar. E, claro, acabou por tocar no assunto das raparigas — conversa inevitável quando se tem a nossa idade.
Num impulso meio tolo, meio sincero, disse-lhe que havia uma rapariga na rua por quem tinha simpatia.
Ele arregalou os olhos, como se eu lhe tivesse confessado um segredo de Estado.
— Quem é? — perguntou logo, ansioso, quase a salivar perante o mistério.
Sorri, tentei mudar de assunto, mas ele insistiu. O Benjamim tem este talento: fareja quando estamos a esconder algo. Só não tem é noção do desconforto que às vezes causa.
— Não te posso dizer — murmurei, num tom leve, a fingir que era apenas embaraço.
A verdade é que não lhe podia dizer que era a própria irmã dele. Nem eu sabia exactamente o que sentia; era cedo demais para rótulos, cedo demais para explicações. Era apenas uma sensação nova, frágil, como um borbulhar de qualquer coisa que ainda não sei nomear.
Ele torceu o nariz, desconfiado, mas acabou por não insistir. Ou fingiu que não insistia — com o Benjamim nunca se sabe.
A tarde passou assim, entre brincadeiras, conversas soltas e um silêncio meu que, espero, passou despercebido.
Quando voltei a casa, a noite já tinha caído. A cozinha cheirava a sopa quente e preocupação. O meu pai chamou-me para a mesa com aquele tom que não admite desvio.
Sentámo-nos, e ele ficou a rodear o assunto como quem evita magoar, mas precisa dizer a verdade. Falou da economia, dos tempos difíceis, das contas apertadas. Falou da família. E, por fim, falou de mim.
— Talvez não fosse má ideia começares a pensar em trabalhar de dia e estudar de noite — disse, sem dureza, mas com aquele peso que só os pais sabem pôr nas palavras. — Isto não está fácil, filho. E temos de ser práticos.
Fiquei a olhar para o prato, a mexer a sopa sem lhe tocar. Sabia que tinha razão. Sabia que as coisas estavam periclitantes — palavra que ele usou e que ficou a ecoar na minha cabeça como um sino triste.
Senti o futuro a aproximar-se sem pedir licença. E senti também medo, não muito, mas o suficiente para gelar um pouco o peito.
Depois, lembrei-me da tarde. Da curiosidade nova. Daquela porta entreaberta dentro de mim.
E percebi que, talvez, crescer fosse mesmo isto: lidar com o peso e, mesmo assim, continuar a procurar o que acende luz.
Hoje fico assim: meio inquieto, meio esperançoso. O futuro aproxima-se e eu começo — só começo — a aprender a andar ao seu encontro.
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