Um aceno ao desconhecido
Sexta-feira, 2 de Janeiro de 1976
Acordei mais cedo do que esperava, sem aquela névoa pesada dos últimos tempos. O frio continuava a abraçar a manhã, mas já não me incomodava tanto — como se o corpo tivesse decidido alinhar-se, enfim, com a minha nova disposição. Há dias em que uma simples respiração parece significar qualquer coisa.
Passei a manhã sem grandes acontecimentos, apenas a arrumar o quarto e a pôr um pouco de ordem no caos habitual. Curioso como, quando a cabeça começa a clarear, apetece-nos que o resto do mundo acompanhe. Pequenos sinais, talvez; ou talvez só vontade de recomeçar como deve ser.
À tarde, encontrei-me com o Manel para irmos ter com o Benjamim, que nos esperava em casa dele. Era daqueles encontros habituais, sem marcação séria, apenas a vontade de estar juntos. A casa do Benjamim tinha sempre um burburinho próprio — talvez pela família numerosa, talvez pela energia que parece viver ali.
Foi quando entrámos que a notei. A Graça.
A irmã dele, dois anos mais nova do que eu, apareceu no corredor para perguntar qualquer coisa sobre o lanche. Já a tinha visto outras vezes, claro, mas hoje… hoje foi diferente. Não sei se porque eu próprio ando mudado ou porque, por uma vez, não trazia sombras agarradas à memória. Mas por um instante observei-a com outros olhos. O rosto jovem, ainda com aquele brilho despreocupado; o cabelo apanhado à pressa; um sorriso leve, quase distraído, mas que iluminava mais do que devia.
Não fiz comparações. Nem tentei. Apenas admirei. E isso, para mim, já foi novo.
Senti qualquer coisa, pequena, mas viva, a erguer-se cá dentro — como uma brasa que se reacende quando já ninguém espera lume. Não era paixão, não era promessa. Era curiosidade. Um interesse inesperado, sem peso, sem pressa. Como se o coração, afinal, estivesse a recuperar a coragem para olhar para alguém sem se encolher.
O Manel chamou-me para irmos para o quarto do Benjamim, e a tarde passou entre conversas, risos e disparates habituais. Eu participei em tudo, claro, mas houve instantes em que a minha mente regressou àquela imagem breve — a luz no corredor, o sorriso, a juventude simples e descomplicada.
Talvez seja normal esta tendência para reparar em raparigas mais novas. Ou talvez seja apenas o destino a dar-me um pequeno empurrão, como quem diz: “Vês? Há mais mundo do que aquele onde estiveste preso.”
Ao regressar a casa, senti que algo tinha mudado — não muito, mas o suficiente para deixar o ar diferente à minha volta. Como se uma porta se tivesse entreaberto sem ruído.
Hoje levo comigo esta sensação nova: não estou apenas a seguir em frente… estou, aos poucos, a abrir espaço para que algo — ou alguém — surja sem avisar.
E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me assusta.
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