Decisões, decisões...
Quinta-feira, 1 de Janeiro de 1976
Acordei tarde, como se o corpo tivesse decidido ficar a meio caminho entre o ano velho e o novo. A casa ainda cheirava a fumo dos foguetes que entraram pelas frinchas das janelas, e havia um silêncio confortável, desses que só o primeiro dia do ano sabe oferecer — uma trégua breve, quase sagrada.
Não pensei nas memórias do passado ao acordar. Ou melhor: pensei muito pouco, o que já é uma vitória. A dor já não vinha com aquela pontada funda; vinha arredondada, quase mansa, como uma onda que finalmente perdeu força ao chegar à areia. Talvez seja assim que a vida nos empurra para a frente: primeiro dói, depois cansa, e só então cede.
Saí para a rua com as mãos nos bolsos e a cabeça mais leve do que esperava. A Vila parecia varrida de emoções — ruas quase vazias, uma senhora a varrer a soleira da porta, um cão a farejar o ar como se também procurasse sinais de mudança. E eu ali, a sentir que tinha acabado de perder algo, mas também de ganhar espaço para qualquer coisa por nascer.
Os meus amigos, o Manel e o Benjamim, já quase não fazem parte da minha escrita diária, mas continuam presentes na minha vida. Apenas acontece que as emoções destes últimos tempos têm ocupado tanto espaço que quase não sobra lugar para contar os nossos passeios. Até ver, nada de relevante tem acontecido para merecer nota no diário.
Caminhei sem destino, como ontem, mas com outra disposição. Desta vez, não esperava que o mundo me desse respostas; queria apenas começar a procurar as minhas. Talvez seja isto crescer: aceitar que o futuro não chega feito, mas construído à medida dos passos.
Ao passar pelo largo da igreja, ouvi risos vindos de um grupo de rapazes e raparigas da minha idade. Um deles acenou-me, e devolvi o gesto com um sorriso meio desajeitado. E, por um instante breve, senti a porta entreaberta para um mundo que não fosse feito da sombra que antes ocupava aquele lugar. Não era um convite declarado, apenas uma possibilidade — e, hoje, isso bastava.
À tarde, sentei-me na mesa do meu quarto com um caderno novo, desses que ainda cheiram a promessa. Escrevi apenas uma frase: “Hoje começou um futuro cujo rumo ainda desconheço.”
Ficou lá, no topo da página, como um título provisório daquilo que virá. Não me preocupou não saber mais; há dias em que basta reconhecer o impulso.
Pela primeira vez em muito tempo, senti o coração disponível. Não para alguém em particular, mas para o desconhecido — para o que vier, para quem vier, para as curvas inesperadas que o ano decidir oferecer-me. Há qualquer coisa libertadora nisto: perceber que a vida continua, mesmo quando uma história termina antes de ser história.
À noite, enquanto o frio se fechava sobre S. Pedro da Cova, deixei a janela entreaberta. Não para que alguém entrasse — nada disso —, mas para que eu próprio pudesse respirar um ar diferente. Era simbólico, claro, mas às vezes o símbolo é o que nos empurra.
Hoje fica esta certeza mansa: estou pronto. Não para esquecer à força, nem para fingir que não doeu, mas para seguir adiante com dignidade. Há caminhos que só aparecem quando paramos de olhar para trás.
E, quem sabe, algures neste ano ainda por estrear, talvez o mundo me surpreenda da melhor maneira possível.
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