Um nome no muro
Terça-feira, 1 de Junho de 1976
Novo dia, novas promessas. O dia nasceu devagar, sem ordens nem urgências. Este meu novo eu deixou-se ficar em casa, mergulhado no estudo até à hora de almoço, com uma serenidade que não me era habitual. Nada me empurrou, nada me puxou. Apenas fiz o que havia a fazer.
De tarde, as aulas correram naturalmente, sem esforço digno de registo. Tudo encaixou como peças já gastas pelo uso.
Ao fim da tarde fui para a Academia. As mesmas raparigas estavam lá, como se o cenário se repetisse por insistência do destino. Sentei-me no muro à espera do Benjamim. Foi então que uma delas se aproximou. Perguntou-me o nome, quis saber o que eu fazia ali. Disse-lho sem rodeios e expliquei-lhe que praticava karaté num ginásio ali perto. Disse-me que se chamava Aida. Falámos um pouco da escola, dessas coisas que servem de ponte quando ainda não há terreno firme.
Pouco depois chegou o Benjamim. Antes de irmos para o treino, a Aida perguntou quanto tempo demoraríamos, acrescentando que esperava que já tivéssemos saído quando regressasse. Assim foi. Quando terminámos o treino, lá estava ela. Acompanhou-nos até à paragem e depois seguiu o seu caminho, simples, sem teatro.
Não sei o significado deste interesse da Aida. Talvez não haja ainda significado nenhum. E isso é aceitável. Sei apenas que sou livre — embora ainda não esteja verdadeiramente preparado, nem convencido, para começar outra história. O coração, às vezes, precisa de silêncio antes de aprender uma nova língua.
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