A rotina como desgaste

Sábado, 10 de Julho de 1976

Acordei cedo outra vez. Já nem sei se por hábito ou por resignação. O corpo levanta-se antes de mim, como se tivesse aprendido que não vale a pena resistir. O ritual repete-se, exacto, implacável: sair, pedir o jornal emprestado, folhear anúncios que parecem escritos para outra pessoa, noutro país, noutra vida. Leio sem ler. Procuro sem querer encontrar. Devolvo o jornal e trago comigo o mesmo peso de sempre.

Isto não anda. Não avança, não recua. Gasta.

O resto da manhã passa num estado morno, sem nervo. Faço tempo. O tempo faz-me. Não há discussões, não há novas ordens, mas a vigilância está lá, silenciosa, eficaz. Começo a perceber que o pior não é a obrigação em si, mas a sensação de não ter escolha. A liberdade, quando nos é retirada aos poucos, quase não se nota — até já não existir.

De tarde o Manel aparece, como tem acontecido todos os dias. A sua presença já não é surpresa, é âncora. Ficamos em minha casa a ver televisão porque é o que sabemos fazer quando não sabemos o que fazer. Conversamos pouco. Ele percebe. Não insiste. Há inteligências que não precisam de explicação.

O dia termina cedo, cansado sem ter feito nada. Um cansaço estranho, sem suor, sem glória. Jantei, recolhi-me, deixei a noite fechar-se sobre mim como um pano pesado. Não pensei muito. Aprendi, nestes dias, que pensar em excesso é um luxo perigoso.

Deitei-me com a sensação de que estes dias sem história estão a moldar qualquer coisa em mim, mesmo que eu ainda não saiba o quê. Talvez resistência. Talvez silêncio. Talvez apenas a certeza de que nada disto pode durar para sempre.

Amanhã volto a acordar cedo. Não porque quero, mas porque ainda não encontrei outra forma de continuar.


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