Férias sem fuga
Sexta-feira, 9 de Julho de 1976
O dia começou cedo demais, outra vez. Levantar-me deixou de ser um acto natural; é agora um dever imposto, seco, sem margem para negociação. A rotina repete-se com a precisão de um castigo bem ensaiado: sair, pedir o jornal emprestado, folhear anúncios que não prometem nada e devolvê-lo com um agradecimento que me sabe a derrota. Isto não são férias. São um cerco lento.
Cada manhã assim vai-me gastando por dentro. Não há gritos, não há violência visível, mas há uma pressão constante, dessas que não deixam marcas na pele e, por isso mesmo, duram mais. Pergunto-me quanto tempo vou aguentar. E logo a seguir surge o pensamento que mais me assusta: se arranjar emprego, deixarei de estudar? A pergunta paira, ameaçadora. Não lhe toco. Há ideias que, se pensadas até ao fim, derrubam o pouco equilíbrio que resta.
O Manel mantém-se firme ao meu lado. É o espectador solidário deste drama silencioso. Faz tudo o que pode para me distrair, para me puxar para fora de mim, mas hoje nada resulta. Saímos de bicicleta.
— Para o Monte… — diz ele, com aquele entusiasmo teimoso que lhe conheço.
Vamos. Mas nem o caminho, nem o ar mais fresco, nem a subida me devolvem ânimo. Pedalo por inércia, não por vontade. O corpo mexe-se; o espírito fica atrás.
A tarde passa sem deixar rasto. Apenas o cansaço acumulado e a sensação de estar encurralado num tempo que não escolhi. Ao fim da tarde fui para a Academia. Precisava descarregar. O karaté cumpriu o seu papel: golpes, suor, esforço — tudo isso ajudou a escoar a frustração que trazia agarrada ao peito desde manhã. O corpo entende coisas que a cabeça se recusa a aceitar.
Nem a presença da Aida me animou quando saí do treino. Dei por mim distante, fechado, como se estivesse a falar através de um vidro grosso. Não é culpa dela. Há dias em que simplesmente não há espaço para mais ninguém.
Voltei para casa com um desejo simples e quase infantil: que este pesadelo desapareça. Que alguém acorde e diga que acabou. Sei que não é assim que as coisas funcionam, mas a esperança, mesmo ingénua, ainda é o que me mantém de pé.
Amanhã será outro dia. Não sei se melhor. Mas ainda resisto. E, por agora, isso terá de bastar.
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