Dias que não respondem

Quinta-feira, 8 de Julho de 1976

Acordei com a estranha sensação de que o dia não tinha nada para me dizer. Nem boas notícias, nem más. Apenas silêncio. Há dias assim: não nos empurram, não nos travam, limitam-se a observar. Levantei-me sem pressa, como se atrasar os gestos pudesse atrasar também as obrigações que me esperavam, ainda que mal definidas.

A manhã arrastou-se. Fiz por ocupar as mãos — livros, papéis, pequenos nadas — mas a cabeça insistia em regressar ao mesmo ponto: a ideia de que eu estava parado enquanto o mundo exigia avanço. Não houve discussões, não houve ordens novas, mas a pressão continuava lá, invisível e eficaz. Às vezes o que mais pesa é aquilo que já nem precisa de ser dito.

De tarde saí com o Manel. Voltámos às bicicletas, esse ritual quase sagrado de fuga. O vento na cara ajudava a empurrar os pensamentos para trás, ainda que só por instantes. Rimos de coisas sem importância. Humor rápido, desses que não resolve nada mas impede o desmoronamento total. Foi pouco, mas foi suficiente para não deixar o dia cair por completo.

O tempo passou sem deixar registo. Não me lembro exactamente por onde andámos nem quanto tempo ficámos fora. Talvez porque não importe. Há dias que não querem ser lembrados; querem apenas ser atravessados.

Ao fim da tarde regressei a casa com a sensação de tarefa cumprida, embora não soubesse dizer qual. Jantei em silêncio, como quem respeita um luto sem saber bem de quê. A noite trouxe consigo um cansaço limpo, menos pesado do que nos dias anteriores. Não era esperança. Era apenas uma trégua.

Deitei-me a pensar que estes dias sem história estão, afinal, a escrever alguma coisa em mim. Não sei ainda o quê. Mas pressinto que o futuro não se constrói apenas com acontecimentos grandes. Às vezes constrói-se com a resistência calma de continuar, mesmo quando o dia não responde.


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