A persistência do vazio

Quarta-feira, 7 de Julho de 1976

O dia nasceu igual ao anterior, como se tivesse sido copiado à pressa. O mesmo céu, a mesma luz, a mesma sensação de carregar algo que não se vê mas pesa. Acordei já cansado, o que é sempre um mau sinal. Os pensamentos de ontem não se foram embora durante a noite; limitaram-se a mudar de posição, à espera que eu abrisse os olhos.

Passei a manhã fechado em mim. Fiz coisas sem lhes dar nome, ocupei o tempo para que ele não se ocupasse de mim. Li algumas páginas, escrevi nada, pensei demais. O quarto continuou a ser o meu território seguro e, ao mesmo tempo, a minha prisão consentida. Ninguém me incomodou. Também não procurei ninguém. Há dias em que a solidão não dói — apenas se instala.

De tarde voltei a sair com o Manel. A sua presença continua a ser essencial, mesmo quando não resolve nada. Andámos por aí, de bicicleta, como se o movimento pudesse substituir uma direcção. Falámos pouco. Não porque faltassem palavras, mas porque nenhuma parecia necessária. A amizade, nesses momentos, é isto: estar. Sem perguntas, sem soluções.

O peso do emprego, da obrigação, da expectativa paterna, continuou a pairar como um zumbido constante. Não gritava, mas também não se calava. Eu sentia-me suspenso, num tempo que não avançava nem recuava. Não era revolta. Era um cansaço precoce, desses que não se explicam a quem ainda acredita que tudo se resolve com força de vontade.

Não houve treino, não houve encontros marcantes, não houve acontecimentos dignos de memória. E, no entanto, o dia existiu. Terminou como começou: sem história, mas não sem efeito. Porque até os dias vazios deixam marcas — não na pele, mas na forma como começamos a aceitar o silêncio como resposta.

Deitei-me cedo. Não para dormir, mas para fechar o dia. Amanhã talvez traga menos peso. Ou talvez não. Mas já aprendi uma coisa: mesmo quando nada acontece, alguma coisa muda. Devagar. Quase imperceptível. Como eu.


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