O peso das mãos vazias
Terça-feira, 6 de Julho de 1976
Acordar em férias devia ser um acto simples, quase inocente. O sol já prometia calor, o dia vinha limpo, sem culpa. Mas há ordens que se levantam antes de nós. A exigência do meu pai — encontrar trabalho — caiu sobre a manhã como uma nuvem baixa, daquelas que não chove mas tira a luz toda. Não era novidade. Era reincidência. E a reincidência cansa mais do que a surpresa.
Ir pedir um jornal emprestado ao ardina foi o ponto mais baixo do dia. Não pelo jornal, mas pelo gesto. Pela sensação de mendigar um futuro que eu não queria ainda vestir. Aquele papel nas mãos não trazia anúncios; trazia um espelho desconfortável onde eu não me reconhecia. Cumprida a ordem, recolhi-me ao quarto como quem regressa a um abrigo improvisado. Um livro qualquer serviu de bóia. Não para aprender, mas para não pensar. Ler, ali, foi apenas um acto de sobrevivência.
A tarde só começou verdadeiramente quando o Manel bateu à porta. A sua presença teve o efeito de uma janela aberta num quarto fechado há horas. Saímos. Não por vontade de descobrir, mas por necessidade de fugir. Fuga é isto: andar sem destino, parar onde calha, conversar sem ouvir bem. As ruas sucediam-se, as paragens também, mas nada conseguia sossegar o nó que me apertava por dentro. Eu estava lá, mas não estava inteiro.
Ao fim da tarde fui para a Academia. Precisava que o corpo dissesse o que a cabeça já não conseguia. A Aida esperava-me. Entreguei-lhe o bilhete que ela tanto desejava. Fiz isso correctamente, quase mecanicamente, como quem cumpre um ritual sem fé. Depois segui para o treino vazio, limpo de emoção, como uma sala depois de retirada a mobília.
O karaté fez o que tinha de fazer: castigou-me o corpo. E nesse castigo encontrei algum alívio. Cada dor era concreta, honesta, localizável. Ao contrário do resto. Quando cheguei a casa, já passava da meia-noite.
Em casa, o silêncio parecia cúmplice. Não perguntou nada. Não exigiu respostas. Acolheu-me como eu estava: cansado, gasto, calado. Às vezes, o melhor que um dia pode fazer é acabar. E este fez isso com dignidade.
Amanhã continuamos. O futuro, esse, ainda não sabe, mas está a ser empurrado devagar — entre livros, ruas sem destino e golpes dados no ar.
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