O dia que não quis existir

Segunda-feira, 5 de Julho de 1976

Hoje não houve história.
Houve tempo. Demais. E houve pensamento, esse animal inquieto que não sabe ficar quieto num canto.

Passei o dia comigo mesmo, o que nem sempre é boa companhia. Os pensamentos vieram sem bater à porta, sentaram-se e recusaram sair. Não diziam nada de concreto, mas ocupavam tudo. Como fumo num quarto fechado.

O Manel esteve presente, como quase sempre. Necessário, sim. Mas hoje foi diferente. A sua presença não iluminou; fez sombra. Não por culpa dele — ninguém tem culpa quando o outro já vem escuro por dentro. Houve momentos em que até o silêncio entre nós parecia pesado, como se estivesse carregado de palavras que não queriam nascer.

Nunca desejei tanto que o dia acabasse. Não por cansaço do corpo, mas por exaustão da alma. Cada hora arrastou-se, teimosa, como se quisesse provar-me alguma coisa. Não conseguiu. Apenas me gastou.

O que foi isto que, de repente, tomou conta da minha mente, da minha vontade, dos meus desejos? Não sei dar-lhe nome. Talvez nem tenha nome. Talvez seja só crescer a doer, sem aviso, sem manual de instruções.

E o futuro? O futuro observa-me em silêncio, como quem sabe mais do que diz. Não promete nada. Não ameaça. Limita-se a esperar.

Hoje aprendi isto: há dias que não querem ser vividos, apenas atravessados. E atravessei-o como pude. Amanhã — com um pouco de sorte — o mundo talvez volte a caber dentro de mim.


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