Onde o mar suspende o peso do nome
Domingo, 4 de Julho de 1976
Hoje fugi.
Não foi uma fuga heróica, nem dramática. Foi limpa. Necessária. Fugi de casa, dos amigos, da terra que me aperta como um sapato velho, do Monte, do Alto do depósito, de tudo o que insiste em dizer-me quem sou quando nem eu sei.
O Verão abriu-se inteiro e aceitei o convite. Fui para a praia com o meu pai. Não falámos muito. Não era preciso. O mar tratou do resto.
A brisa vinda do oceano apagou o incêndio que eu trazia dentro. As ondas, pacientes e repetidas, calaram as vozes que se atropelavam na minha cabeça. A água fria entrou-me no corpo como um aviso: ainda estás vivo, ainda sentes. Ou talvez não sentisse nada — e isso, estranhamente, soube bem.
Caminhei sem destino. Nadei sem pressa. Fiquei junto ao rebentar das ondas como quem escuta um segredo antigo que não precisa de ser compreendido. Não pensei. Não senti. Naqueles instantes fui apenas eu, sem rótulos, sem obrigações, sem perguntas. Uma raridade.
O regresso a casa trouxe de volta a dormência do espírito. A terra tem este talento cruel: lembra-nos sempre quem éramos antes de ousar respirar fundo.
Fechei-me no quarto. Da cozinha vinham sons soltos do rádio, músicas que não me chamavam, apenas passavam. Deixei-me ficar. O corpo cedeu primeiro, depois a mente. A sonolência empurrou-me devagar para dentro dos sonhos.
Amanhã logo se vê. Hoje, ao menos por algumas horas, consegui desaparecer — e sobreviver a isso.
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