O que fica depois do silêncio

Sábado, 3 de Julho de 1976

A manhã começou junto do meu pai, debruçados sobre a motorizada. Mãos ocupadas, cabeças caladas. Há uma paz estranha nestes momentos: ninguém pergunta, ninguém explica. Trabalha-se. Resolve-se. E, sem se dizer, sente-se que há ali uma forma simples de pertença. Foi breve, mas suficiente para me ancorar ao dia.

Depois sentei-me a escrever um bilhete para a Aida. Não era apenas papel e palavras — era um gesto que me comprometia. Escrevi devagar, com receio de errar o tom, como se uma frase mal colocada pudesse desviar todo o futuro. Ao dobrar o papel, percebi que não estava a escrever para ela apenas, mas também para mim: para perceber o que sentia, para medir até onde estava disposto a ir. Decidi entregá-lo na terça-feira. Adiar também é uma forma de coragem. Ou de medo. Ainda não sei.

Li um pouco até à hora do almoço, mas a leitura serviu mais de abrigo do que de interesse real. As palavras entravam, mas ficavam à porta.

A tarde passou sem resistência. Televisão, cartas em casa do Manel, rotinas conhecidas que me protegiam de pensar demais. Ri-me quando era suposto rir, joguei como sempre joguei. Mas havia qualquer coisa em mim que estava ausente, como se estivesse apenas a representar o papel de mim próprio. Um passeio de bicicleta trouxe algum alívio — o corpo ajuda quando a cabeça se complica.

Ao regressar a casa, deixei-me ficar diante da televisão, até o programa acabar. Depois conversei um pouco com o meu pai. Coisas simples. O suficiente para não estar sozinho com os meus pensamentos.

Agora, no fim do dia, é que tudo se torna mais nítido. A carta está ali, dobrada, à espera. E eu também. Sinto uma mistura desconcertante: a tranquilidade de ser desejado e o desconforto de desejar outra pessoa. A Aida traz-me a possibilidade concreta de um caminho. A Dila continua a ser o caminho que nunca deixou de doer.

Não estou triste. Também não estou em paz. Estou suspenso — entre o que me é oferecido e o que nunca deixei de querer. E talvez esta seja a emoção mais difícil de todas: perceber que crescer começa quando já não basta esperar que as coisas aconteçam. É preciso escolher.


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