Entre dois nomes

Sexta-feira, 2 de Julho de 1976

O dia nasceu cedo demais, quente demais, como se o Verão tivesse decidido não pedir licença. No meu quarto, o silêncio era espesso e deixei-me ficar dentro do livro, esse lugar onde entro e nem sempre sei se quero sair. A fantasia começa a cansar. Há sonhos que, quando insistem demasiado, deixam de ser abrigo e passam a ser peso. Talvez um dia feche essa porta de vez. Ou talvez não. A indecisão também é uma forma de fidelidade.

A tarde levou-nos, a mim e ao Manel, para o nosso território habitual. Não é apenas sombra nem apenas sossego. É um palco invisível onde esperamos sempre que algo aconteça. Ou alguém. Cada passo que se aproxima, cada voz ao longe, faz o coração acelerar como se soubesse antes de nós. Depois nada. O silêncio regressa, mais pesado, e ficamos outra vez entregues à ausência, essa presença constante que não paga renda mas ocupa tudo.

Ao fim da tarde voltei à Academia. Foi aí que a Aida apareceu, com um nervosismo mal disfarçado no rosto. Despediu-se depressa e deixou-me um bilhete, com a condição solene de só o ler depois. Obedeci. No trólei, entre paragens e solavancos, li palavras que não estava à espera de ler. Amor. Paixão. Directas, sem rodeios, como quem atira uma pedra ao lago e espera ver os círculos a formar-se.

Formaram-se. Mas não como ela talvez esperasse.

Durante o resto do caminho, o rosto da Dila interpôs-se, insistente, entre mim e a Aida. Dois nomes. Dois mundos. Um oferecia-me a tranquilidade de ser escolhido. O outro trazia-me a dor antiga de desejar sem garantia. Senti-me satisfeito e ferido ao mesmo tempo, o que é uma habilidade que a adolescência domina com mestria cruel.

Agora, deitado no meu quarto, escrevo para tentar perceber o que se passa cá dentro. As emoções atropelam-se, não pedem ordem nem explicação. Talvez a noite traga sono. Talvez traga insónia. Seja como for, amanhã escutarei o meu coração. Ele costuma falar baixo, mas nunca mente.


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