A igualdade desigual dos dias

Quinta-feira 1 de Julho de 1976

Hoje foi como quase todos: repetido no gesto, diferente no peso.

A manhã escorreu mansa, sem sobressaltos — o Manel por perto, a música a ocupar o ar, e eu a escrever aquele livro que nasceu de um sonho e insiste em não me largar. Escrevo-o como quem tenta segurar fumo entre os dedos: sei que se vai perder, mas tento na mesma.

De tarde, interrompi a leitura para acompanhar o Manel à escola do Passal. Íamos por causa da Ana Maria, irmã da Dila. Fui sem grande entusiasmo, já sabendo que aqueles caminhos nunca desembocam em mim. Foi lá que soube que a Dila não passara de ano. Imaginei-lhe o silêncio pesado em casa, os castigos sem palavras, a culpa servida fria à mesa. Conheço bem esse prato.

Voltámos ao de sempre — o Monte, os seus contornos gastos, as voltas sem destino claro. Andar só para não ficar parado. E foi aí que a vi, ao longe. A Dila, distante como um pensamento proibido. Não houve gesto, não houve palavra. Apenas aquela sensação estranha que fica quando algo passa por nós e leva qualquer coisa que não sabíamos que era nossa.

A noite chegou, pontual como um cobrador antigo.
E com ela regressaram os fantasmas do passado — esses não se perdem no escuro. Sentam-se comigo. Não pedem licença.


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