O momento basta

Quarta-feira, 30 de Junho de 1976

Foi mais um dia sem grandes sobressaltos, desses que não pedem para ser lembrados, mas que ainda assim deixam rasto. O Manel continua a ser a presença firme, quase silenciosa, que me salva da insensibilidade que por vezes se instala. Não é preciso muito: basta estarmos juntos. Qualquer coisa serve para ocupar o tempo, porque o essencial não é o que fazemos, é o facto de não estarmos sós.

As bicicletas voltaram a ser a nossa forma de fuga. Duas rodas e um pretexto bastam para escapar às paredes de casa, que mesmo com as portas abertas continuam a saber a clausura. De manhã e de tarde repetiram-se os passeios, mas nunca iguais. Há sempre uma rua nova, uma conversa diferente, um pensamento que se solta. Pedalar é uma espécie de sanidade em movimento.

Como sempre, os caminhos acabam por passar por casa da Dila. Não por obrigação, nem por ansiedade. É simplesmente assim, como se o mundo tivesse ali um eixo invisível. Não espero nada, não temo nada. O momento basta. O espaço basta. Às vezes sonhar não exige mais do que passar devagar.

Tudo gira em torno desta liberdade simples que as férias oferecem sem pedir nada em troca. E somos gratos por isso, mesmo sem o dizer em voz alta. O mês fecha-se assim, sem estrondo, mas com uma janela aberta. Do outro lado está o amanhã, ainda sem nome, ainda sem forma. E talvez seja isso o melhor que ele tem.


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