O tempo em ponto morto

Terça-feira, 29 de Junho de 1976

As férias chegaram como um silêncio demasiado grande.
Nada para fazer. Ou melhor: nada que dure. Tudo começa e morre em poucos minutos, como fósforos riscados ao acaso.

O mais difícil não é a falta de ocupação, é a falta de continuidade. Tento agarrar o tempo, mas ele escorre-me pelos dedos com uma lentidão exasperante, quase provocatória.

O Manel continua por perto. Presença constante, companhia fiel. Não resolve o vazio, mas torna-o habitável. Conversamos, divagamos, deixamos as horas passarem sem pedir desculpa por isso.

Quando fico sozinho, refugio-me onde sempre soube ir:
na música, que me acompanha como um murmúrio antigo;
na leitura, que me salva do ruído da cabeça;
na escrita, que serve de dreno — os pensamentos escorrem para o papel e, por instantes, deixam-me respirar.

Ao fim da tarde, o treino de karaté é uma espécie de libertação física. Saio de casa, mexo o corpo, gasto a tensão acumulada. Não resolve a vida, mas alinha-a por dentro.

À noite, entrego-me à música gravada numa cassete. Deixo-a tocar até que o sono me apanhe desprevenido.
Adormeço assim, embalado por sons repetidos, enquanto o dia se fecha sem ter acontecido grande coisa.

E amanhã… provavelmente será parecido. Mas ainda não é amanhã.


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