A chuva como limpeza

Segunda-feira, 28 de Junho de 1976

O dia acordou com a mesma disposição com que me deitei: mau tempo, chuva grossa e trovoada a rasgar o silêncio. O céu parecia zangado por mim. Ainda assim, a minha cabeça estava mais leve, mais desanuviada, como se tudo o que me esmagara nos últimos dias não tivesse passado de um pesadelo mal dormido. A tempestade ficou cá fora. Dentro, algo assentou.

De manhã, como sempre, apareceu o Manel. Tirou-me da cama com a sua boa disposição quase ofensiva. Não podíamos sair, por causa do tempo, e por isso ficámos em casa. Jogámos cartas, ouvimos música, deixámos as horas escorrer enquanto a chuva fazia o seu espectáculo lá fora. Esperámos que o mundo abrandasse.

Quando o tempo acalmou, saímos. Aproveitámos a frescura que só vem depois da chuva, esse ar lavado que parece prometer recomeços. À tarde, depois de almoçar, encostei-me a ler um livro até o Manel voltar. E voltámos a sair.

Fomos até ao Alto do Gódio à procura de fósseis. Como se o passado longínquo — milhões de anos enterrados em pedra — pudesse distrair-me do meu passado recente. Talvez pudesse. Talvez pudesse mesmo. Houve ali algo de terapêutico em procurar vestígios antigos, silenciosos, indiferentes às nossas pequenas tragédias.

Foi bom sair de casa. Foi bom divagar. Foi bom ouvir os disparates bem intencionados do Manel. A amizade é isto: estar presente quando é preciso, sem soluções mágicas, mas com companhia. E nisso, o Manel cumpre exemplarmente o seu papel.

De volta a minha casa, ficámos juntos em amena diversão até ele ter de ir embora. Sem dramas. Sem promessas. Apenas a continuidade natural de um dia que decidiu acabar bem.

A noite fechou este capítulo com cuidado, deixando em aberto o que o novo dia poderá trazer. E, pela primeira vez em dias, essa incerteza não me assustou.


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