Eleições e outras prisões

Domingo, 27 de Junho de 1976

Dia de eleições presidenciais. Um dia grande para o país, dizem. Dia de decisões importantes. Mas não para mim. Sou novo demais para votar, novo demais para ter palavra, novo demais para contar. A democracia fica-me à porta. Em casa, continuo a viver noutra coisa bem diferente: uma ditadura familiar onde a minha vontade não entra no boletim.

É verdade, continuo zangado. E não é um zanga ruidosa, é pior — é uma zanga que pensa. Acho profundamente injusto que alguém decida por mim o que devo fazer do meu futuro. O futuro diz-me respeito. Só a mim. E essa ideia, simples e óbvia, não me larga desde ontem. Martela-me a cabeça com uma persistência quase cruel.

O Manel foi, mais uma vez, o meu confidente. Coitado. Ouviu-me, tentou relativizar, tentou acalmar-me. Fez o que pôde. Mas nada me demovia da convicção central: a liberdade que defendo para os outros tem de servir também para mim. Caso contrário, é apenas discurso bonito, sem aplicação prática.

O calor abrasador ajudou a fechar-me ainda mais. Um calor que não convida à conversa nem à tolerância. Passei o dia quase mudo. Em casa ninguém conseguiu arrancar-me palavras. Não por desafio consciente, mas porque tudo o que eu tinha para dizer já estava gasto por dentro.

À noite, enquanto todos se juntavam em frente da televisão para acompanhar os resultados das eleições, eu saí. Precisei de sair. A política oficial ficou na sala; a minha guerra pessoal foi para a rua. Deitei-me no muro em frente de casa e fiquei a olhar o céu estrelado. Um céu indiferente, antigo, silencioso.

Olhei como quem pergunta. Como quem espera respostas para questões existenciais que não cabem em urnas nem em discursos. O céu não respondeu. Nunca responde. Mas esteve lá. E, naquela escuridão calma, isso foi o mais perto que estive da liberdade naquele dia.


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