A terra dura e o futuro em disputa

Sábado, 26 de Junho de 1976 

Hoje acordei mal disposto para o dia. Daqueles dias em que nada encaixa logo à partida. Há já alguns dias que o meu pai insiste para eu procurar emprego. Diz, com a convicção de quem não admite réplica, que com a minha idade já trabalhava no duro. Logo, eu deveria fazer o mesmo. Não lhe passa pela cabeça que os tempos são outros. Nem que eu quero estudar, seguir outro caminho. A voz dele fala mais alto do que a minha. Sempre falou.

Contrariado, fui ajudá-lo a limpar o quintal. Terra dura, ingrata, resistente. Enquanto cavava, percebia com clareza desconfortável que não fui feito para desbravar solo à força de braços. Não por desprezo, mas por inadequação. Sinto — e sinto-o fundo — que a minha via é outra. A das palavras, do pensamento, do estudo. Quero ser letrado. Quero uma vida intelectual. Estarei enganado? Hoje essa dúvida cavou mais fundo do que a enxada.

Como se não bastasse, o meu pai pegou no Jornal de Notícias, abriu a página dos anúncios e decidiu responder a um que pedia um aprendiz de qualquer coisa. Qualquer coisa serve, parece ser a ideia. Não quis saber da minha opinião. Escreveu a carta e saiu para a pôr no correio. Assim. Simples. Como se o meu futuro fosse um formulário.

Fiquei desanimado. Desiludido. Tão fechado em mim que nem dei conta da chegada do Manel. Como sempre, apareceu no momento certo. Contei-lhe o que se passava. Ouviu-me. Tentou confortar-me. Mas, desta vez, as palavras não chegaram. Não por culpa dele — há dores que não se resolvem com frases.

Ouvimos música. Jogámos cartas. Fizemos tudo o que costuma resultar. Não resultou. Precisava de sair. De respirar. Com a cabeça quente e os pensamentos em desalinho, fomos até ao Alto do Depósito, como se lá estivesse guardado algum elixir para as minhas inquietações.

Lá em cima, vimos passar na rua abaixo a irmã da Dila. Fiquei suspenso. Expectante. Precisava de a ver. Tinha de a ver. Era como se o futuro dependesse disso. Dependia? Talvez não. Ela não surgiu. Não veio.

Ainda assim, algo em mim acalmou. Saber que ela habitava o mesmo espaço que eu, que caminhava pelas mesmas ruas, pareceu suficiente. Um consolo estranho, mas eficaz. Às vezes não precisamos do encontro. Basta a certeza da proximidade.

E assim terminou o dia: sem respostas, mas com o espírito menos agitado. O amanhã que trate do resto.


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