Horizontes e círculos
Sexta-feira, 25 de Junho de 1976
Manhã solarenga, dessas que empurram o corpo para fora de casa sem pedir opinião. O Manel apareceu, como era de esperar. Há fidelidades que não precisam de ser combinadas. Fomos até ao Belo Horizonte, a casa de um colega comum. O nome não engana. Lá do alto, o olhar abre-se e percebe-se melhor onde se vive.
S. Pedro da Cova aparece encurralada entre serras, protegida e presa ao mesmo tempo. O Poço de S. Vicente ergue-se como um marco inevitável, altaneiro, senhor da paisagem. À sua volta, o casario dos mineiros e os edifícios de produção, transformação e transporte do carvão contam uma história dura, repetida, escrita a preto. Visto de cima, tudo parece mais organizado. Talvez até mais suportável. A distância faz milagres estranhos.
De tarde, eu e o Manel voltámos a fazer o mesmo caminho de sempre: aproximámo-nos de casa da Dila. Não sabíamos explicar porquê. Havia algo que nos puxava naquela direcção, como se os passos já conhecessem o destino melhor do que nós. Não nos incomodava. Tornara-se quase natural. Os nossos caminhos cruzavam-se ali, mesmo quando nada acontecia.
Não a vi. E isso deixou-me uma pena mansa, sem dramatismos. O Manel, esse, ainda teve um instante de deslumbramento ao ver a Ana Maria. Durou pouco. O aparecimento da mãe e dos irmãos apagou o momento com a eficácia de quem fecha uma porta conhecida. Vitórias inglórias. Parece ser isso que nos cabe.
Ao fim da tarde, na Academia, a Aida apareceu. Cumprimentou-me e iniciou um diálogo sem conteúdo, sem interesse, desses que existem apenas para ocupar o ar. Terminou assim que fui para o treino. Sem perdas. Sem ganhos.
Há impressões antigas que não se apagam. Também não ferem. Ficam. Não como mácula, mas como lembrança doce, pousada algures na memória, sem exigir nada. E talvez seja esse o seu maior mérito: lembrar sem prender.
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