A festa vista de longe
Quinta-feira, 24 de Junho de 1976
Dia de São João. S. Pedro da Cova acorda diferente, como se tivesse combinado em segredo celebrar sem pedir autorização mesmo não sendo o seu padroeiro. As manhãs destes dias são sempre calmas, quase enganosas, como se a excitação estivesse guardada para mais tarde. Eu acordo sem pressa, já reconciliado com o facto de não ter planos. E curiosamente isso não me pesa.
Passei a manhã entre pequenos nadas: arrumar papéis, reler o que escrevi nos últimos dias, deixar a cabeça vaguear. Há um sossego estranho depois da tensão das notas. Uma espécie de ressaca emocional. O futuro imediato continua vago, mas pelo menos uma porta ficou aberta: passei de ano. Não é pouco.
A tarde foi lenta. O calor instalou-se com autoridade e empurrou-me para dentro de casa. Li mais um pouco. Escrevi menos do que queria. Há dias em que as palavras não se oferecem; fazem-se caras como convidados importantes. Não forcei. Aprendo devagar que a escrita também precisa de silêncio e espera.
Ao cair da noite, os sons da festa ao longe, começaram a infiltrar-se por todo o lado. Anteviam-se risos, música, foguetes, passos apressados. São João fazia-se lá fora,no Passal, exuberante, colectivo, quase obrigatório. Fiquei em casa. Não por tristeza, mas por escolha. Às vezes apetece mais observar do que participar. A alegria alheia também aquece, mesmo à distância.
Pensei na Dila, sem drama, sem urgência. Pensei no Manel, provavelmente algures no meio da confusão, ou não. Pensei em mim, nesta fase estranha entre o que fui e o que ainda não sei ser. A noite passou assim, entre o barulho do mundo e o meu silêncio confortável.
Quando tudo acalmou, percebi que não me faltara nada. Nem martelos de plástico, nem balões, nem promessas. Há festas que se fazem por dentro. E, essas, duram mais do que uma noite.
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