O peso das notas e o silêncio do coração
Quarta-feira, 23 de Junho de 1976
Dia de nervoso miudinho. Aquele que não se vê, mas rói. Dia de ir ao liceu ver as notas. Caminhei para lá com o estômago apertado, como se cada passo pudesse alterar o resultado. Não altera. Nunca altera. Ainda assim, insisti.
Passei de ano. Eu e o Manel. O Benjamim não teve a mesma sorte — chumbou pelo segundo ano consecutivo. A notícia caiu com um peso estranho, mas não conseguiu ensombrar a minha alegria. Não por falta de solidariedade, mas porque o esforço, no meu caso, compensara. E isso conta. Muito. Senti alívio, orgulho contido, uma leve euforia que não precisei de anunciar a ninguém.
Num dado momento, sem razão clara, senti o impulso de ir ver as notas da Dila. Não soube explicar porquê. Não foi curiosidade académica, foi outra coisa qualquer, mais funda, mais silenciosa. Fui. As notas ainda não tinham saído. Voltei atrás com a sensação de ter obedecido a um gesto interior cuja lógica me escapa. Às vezes é assim.
De tarde, o Manel apareceu com algumas cassetes de música. Ficámos em casa a ouvir, a trocar comentários inúteis, a deixar o tempo passar com som de fundo. Até decidirmos ir dar um passeio a pé. Ao passarmos por casa da Dila, o Manel entrou. Fiquei à espera no Alto do Depósito.
O tempo estava soberbo. Da distância chegavam sons de festa vindos do Passal. Talvez um ensaio geral da noite de São João que se aproxima. Este ano não fiz planos para sair. Não me apeteceu. Fiquei ali, parado, a ouvir música que não me chamava.
O Manel voltou. Seguimos caminho para casa, sem história para contar. A Dila e a irmã não estavam em casa. Não houve encontros, nem explicações, nem sequer desilusões. Apenas um vazio neutro, desses que não doem, mas também não aquecem.
A noite fechou o dia como tem feito ultimamente: plácida, quase inebriante. Como se dissesse, em voz baixa, que nem todas as vitórias precisam de festa e nem todas as ausências precisam de drama. E talvez tenha razão.
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