O prazer do pouco
Terça-feira, 22 de Junho de 1976
A manhã arrastou-se em preguiça até o Manel aparecer. Não havia planos, nem vontade de os fazer. Pegámos nas bicicletas e saímos, como tantas outras vezes, sem destino. Procurámos caminhos novos, ruas por onde nunca tínhamos passado. Foi salutar, essa tentativa de descoberta. Embora a verdade seja simples e quase cómica: a nossa terra é pequena e o desconhecido acaba depressa. Ainda assim, a intenção conta. Procurar já é uma forma de alargar o mundo.
A tarde devolveu-me à escrita. Escrevi até me cansar, até as palavras começarem a perder tensão e a repetirem-se. Quando isso acontece, é sinal de parar. Fui para o meu quarto, esse refúgio silencioso onde a solidão não pesa. Peguei num livro e deixei-me embalar pela leitura até que o sono venceu. Dormir também é uma viagem. Talvez a mais gratuita de todas.
Ao fim do dia, fui com o Benjamim para a Academia de Karaté. Um suplemento, como quem diz, um apêndice físico a um dia mental. A Aida estava à entrada do ginásio. A sua presença não me surpreendeu, mas também não me prendeu. Um encontro neutro, sem significado, sem emoção. Apenas alguém que passa pelo mesmo espaço no mesmo instante. Nada mais.
À noite, como quase sempre, tudo encontrou o seu lugar. A noite é uma boa conselheira porque não discute — arruma. Empurra os acontecimentos do dia para um plano distante e deixa apenas o essencial. E, quando isso acontece, percebe-se que houve dias em que o essencial foi simplesmente existir. E isso chega.
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