A liberdade aprende-se

Segunda-feira, 21 de Junho de 1976

Férias de Verão. A palavra muda tudo. Já não há pressa de acordar, muito menos de sair da cama. O tempo estica-se como um gato ao sol, preguiçoso e satisfeito. Os dias parecem nascer sempre sorridentes, limpos de urgências e de obrigações. Quase sem problemas. Quase. Há ainda o fantasma das notas do liceu. Enquanto não souber os resultados, a tranquilidade não é inteira. Passar de ano é importante para mim. Muito. Mas estou convencido de que o esforço, sobretudo no terceiro período, acabará por compensar. Fiz o que estava ao meu alcance. Agora resta esperar — esse desporto ingrato.

De tarde, eu e o Manel fomos até ao Porto. Sem horários, sem compromissos, sem plano. Apenas dois amigos a divagar pela cidade, a deixar que as ruas nos escolhessem o caminho. Foi simples. E foi muito bom. A amizade é isto mesmo: conceder liberdade, não pedir justificações, partilhar o tempo como se ele fosse infinito.

Ao regressar a casa, voltei aos meus livros. Romances, contos, histórias de outros tempos. Gosto dessa sensação de viver várias vidas emprestadas, como quem ensaia futuros possíveis sem consequências imediatas. Ler continua a ser uma forma de estar acompanhado mesmo quando estou sozinho.

À noite, a casa ganhou um tom diferente. O meu pai reuniu-se com o meu padrinho e com o Mazola, uma figura importante na cena política de S. Pedro da Cova. As conversas foram sérias, densas, cheias de subentendidos. Não percebi tudo, mas percebi o suficiente para saber que algo se mexe por baixo da superfície.

Será isto um sinal do que vem aí? Ainda não sei. Não faço perguntas. Aguardo. Há coisas que se revelam melhor quando não são apressadas. E o futuro, esse, já começou a aprender a bater à porta.


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